A Nutella surgiu na Itália como uma resposta à escassez de cacau após a Segunda Guerra Mundial. Fundada como uma confeitaria italiana na região do Piemonte, a Ferrero transformou esse problema em uma solução criativa. Assim, criando a famosa pasta doce feita de avelãs, açúcar e apenas um pouco do raro cacau. Esse sabor único conquistou gerações ao redor do mundo por quase 80 anos. É importante destacar que, antes do creme de avelã, temos o chocolate, e antes do chocolate, temos o cacau. Para que a Nutella pudesse existir, foi necessário percorrer uma longa história que remonta aos povos indígenas latino-americanos.
O Cacau: Um Tesouro Ancestral da América Latina
O cacau é um fruto nativo da América Central e do Sul, mais especificamente da região amazônica. Ele fazia parte da alimentação dos povos originários das Américas.
Os povos astecas, em especial, cultuavam o deus Quetzalcoatl. Para eles, o fruto era a personificação da sabedoria e do conhecimento. Eles acreditavam que esses atributos eram transmitidos a quem o consumisse. Já os povos incas e maias consumiam-no na forma de uma bebida fria e espumante. Porém, existia uma diferença sutil: os incas cultivavam e colhiam o cacau em quantidade suficiente para atender toda a população. Enquanto, entre os maias e astecas, a iguaria era exclusiva da nobreza.
Do Tchocolath ao Chocolate
Naquela época, na região do México, foi criado o tataravô do chocolate quente: o tchocolath. Ele era consumido em taças de ouro e tinha um sabor marcante, com amargor e picância. Os nobres e guerreiros, que tinham acesso a especiarias refinadas, acrescentavam baunilha e mel à bebida. Já o restante da população, quando conseguia acesso, misturava o cacau com vinho ou purê de milho fermentado, adicionando especiarias como pimentão, pimenta e cogumelos.
O chocolate é uma criação atribuída ao povo olmeca. Eles são considerados a cultura-mãe da Mesoamérica (atualmente na região do México), há cerca de 4.000 anos.
Da Conquista à Revolução Industrial
Durante a colonização, o cacau foi preservado como uma bebida energética e afrodisíaca pela corte espanhola. Por muito tempo, sendo mantido em segredo. Apenas aqueles que tinham acesso à nobreza podiam consumi-lo. No início, ao chegar à Europa, o cacau gerou fascínio e estranhamento. A bebida, amarga e muitas vezes picante, era bem diferente do que os europeus estavam acostumados. Foi a partir da adição de açúcar, mel e especiarias como canela e anis, que o chocolate começou sua lenta transformação para o formato doce que conhecemos hoje, tornando-se uma iguaria apreciada pelas elites. Sua disseminação pelo continente foi gradual, mas irresistível.
Foi apenas no século XVI que a bebida atravessou fronteiras para a Itália, graças a Antonio Carletti, marcando o início de sua comercialização. Há boatos de que outro evento responsável pela disseminação do cacau foi o casamento de uma jovem nobre espanhola com o rei Luís XIII da França. Posteriormente, com a chegada da Revolução Industrial, no século XIX, o cacau foi adaptado para outros formatos.
Amargor do Chocolate:
O doce e a sobremesa que conhecemos hoje como chocolate se efetivaram no pós-Segunda Guerra Mundial. Brasil, Equador e México são os maiores produtores e exportadores de cacau. É importante destacar que a produção de cacau gera empregos e absorve mão de obra tanto no meio rural quanto urbano, contribuindo para o desenvolvimento das economias regionais. No entanto, as condições de trabalho precárias, análogas à escravidão, o trabalho infantil e o domínio das multinacionais ainda são algumas das questões sérias que precisam ser enfrentadas.
Essa discrepância entre o prazer que o chocolate proporciona e as duras realidades em sua cadeia produtiva nos convida a uma reflexão. Embora milhões desfrutem dessa delícia, a luta por condições de trabalho dignas e pela erradicação do trabalho infantil no cacau é uma parte amarga dessa história que ainda precisa de muita atenção e ação global.
Cacau e a Imigração:
Assim como o cacau deixou sua terra natal e floresceu em novos climas, nós, imigrantes latino-americanos, também carregamos nossa essência e cultura para além de nossas fronteiras. Resignificamos espaços, construímos pontes e, em cada adaptação, reafirmamos nossa identidade. Essa resiliência, essa capacidade de transformação e de gerar nova abundância, é o que nos une.
O cacau, como tantas frutas tropicais, é um elo entre nossas histórias, nossos países e nossas experiências. A SOMOS oferece um espaço de acolhimento, informação e conexão para brasileiros e latinos na Europa. Somos a união de diversas vivências latinas, com o mesmo objetivo — nos encontrar e fortalecer neste continente. Assine nossa newsletter e receba semanalmente: curiosidades, guias práticos, dicas úteis, promoções exclusivas e muito mais!






