No dia 25 de novembro de 1960, a luta por liberdade na República Dominicana encontrou suas mártires: as irmãs Mirabal. Patria, Minerva e María Teresa, conhecidas como “Las Mariposas”, ousaram desafiar a brutal ditadura de Rafael Trujillo e pagaram o preço com suas vidas. Porém, seu legado de resistência ecoa até hoje no mundo inteiro. Quase 40 anos após seus trágicos assassinatos, a ONU escolheu essa data para marcar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Uma homenagem não apenas à luta delas, mas também às milhões de mulheres e meninas.
Casos Emblemáticos no Brasil
O Brasil, infelizmente, espelha a urgência dessa pauta, mas também tem suas heroínas:
Marielle Franco: Socióloga e ativista dos direitos humanos, destacou-se como defensora das minorias e das comunidades periféricas do Rio de Janeiro. Mulher negra, lésbica e nascida no Complexo da Maré, utilizou sua posição de vereadora para denunciar a violência policial e a desigualdade social. Em março de 2018, Marielle foi brutalmente assassinada, gerando uma forte mobilização por justiça e contra a violência política.
Maria da Penha Maia Fernandes: Tornou-se um símbolo dessa luta após sobreviver a duas tentativas de assassinato pelo próprio marido em 1983, que a deixaram paraplégica. Sua incansável busca por justiça resultou na criação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), um marco na proteção das mulheres e na punição dos agressores. Maria da Penha continua a usar sua voz para conscientizar sobre a violência doméstica por meio de palestras e entrevistas.
Juíza Patrícia Acioli: Enfrentou o crime organizado e a violência policial no Rio de Janeiro. Conhecida por suas sentenças duras contra milícias e policiais corruptos, sofreu constantes ameaças. Em 2011, foi assassinada em frente à sua casa por policiais que havia investigado. Sua morte chocou o Brasil e expôs os riscos de lutar pela justiça em ambientes dominados pela impunidade.
Sinais de Abuso: Reconhecer para Agir
A violência contra a mulher não se manifesta apenas fisicamente. É fundamental reconhecer os diversos sinais de abuso, que podem ser sutis no início e se intensificar com o tempo:
- Violência Física: Agressões como empurrões, socos, tapas, chutes ou qualquer ato que cause dor ou lesão.
- Violência Psicológica: Ações que causam dano emocional, diminuem a autoestima ou controlam o comportamento.
- Violência Sexual: Qualquer ato sexual forçado ou não consensual. Incluindo assédio ou a obrigação de ver ou participar de atos sexuais.
- Violência Patrimonial: Retenção, destruição ou controle de dinheiro, documentos ou bens pessoais, impedindo a mulher de trabalhar ou ter independência financeira.
- Violência Moral: Calúnia, difamação ou injúria contra a mulher.
Algo que não é muito falado é a mutilação genital feminina. Isto é a remoção ritual de alguns ou de todos os órgãos genitais femininos externos de mulheres e meninas.
Se você ou alguém que conhece está vivenciando algum desses sinais, saiba que não está sozinha e que há ajuda disponível.
A Realidade da Violência de Gênero na Europa
No Reino Unido e Europa, onde a maioria dos casos de violência de gênero é criminalizada, muitas mulheres continuam vulneráveis devido a lacunas e limitações nas leis ou na sua aplicação.
Mulheres de minorias, incluindo migrantes e BME (negras e de minorias étnicas), são desproporcionalmente afetadas pela violência de gênero. Elas enfrentam barreiras adicionais para acessar proteção, como:
- Barreiras linguísticas: Dificuldade em comunicar-se claramente sobre o abuso.
- Medo de deportação ou de perder o status migratório: Exploração da vulnerabilidade legal pelo agressor.
- Isolamento social e cultural: Falta de rede de apoio fora da comunidade imediata.
- Falta de conhecimento sobre seus direitos: Desinformação sobre as leis locais e os recursos disponíveis.
- Estigmas culturais: Pressões para manter o silêncio ou “proteger” a família.
- Dificuldade de acesso a serviços de apoio
O Estereótipo Hipersexualizado: Uma Camada Adicional de Vulnerabilidade
Além disso, as mulheres brasileiras na Europa frequentemente enfrentam um estereótipo hipersexualizado enraizado em séculos de preconceitos. Essa visão distorcida tem suas origens na colonização, que desumanizou e objetificou corpos femininos, especialmente os de mulheres não-brancas. Ao longo da história, essa imagem foi reforçada por campanhas de turismo, entre os anos 60 e 80, que perpetuaram a visão do Brasil como o país da sensualidade e dos “corpos exóticos”. A imigração brasileira para países como Portugal nos anos 90, muitas vezes envolvendo mulheres em situação de vulnerabilidade, também contribuiu para alimentar esse estereótipo.
Este preconceito não tem fronteiras e se manifesta ainda hoje no dia a dia e no ambiente de trabalho das mulheres brasileiras por toda a Europa. Isso se traduz em olhares invasivos, abordagens inadequadas e assédio. Estes geram dificuldades e constrangimentos desde o cotidiano até o ambiente profissional. Tais experiências, somadas a estereótipos mais amplos da mulher latina. Frequentemente reforçados pela mídia e produções como as de Hollywood desde dos anos 40, tornam-nas alvos de discriminação e, em muitos casos, podem escalar para formas diretas de violência.
A violência contra mulheres migrantes não se restringe a lares ou relacionamentos. Ela se manifesta também em espaços públicos, onde o anonimato e a impunidade favorecem abusadores. Sessenta e cinco anos após o assassinato das irmãs Mirabal, a luta continua. Em 2025, casos como o de Juliana Marins e, mais recentemente, o de uma brasileira anônima atacada no metrô de Paris, escancararam a precariedade da proteção às mulheres estrangeiras . Mesmo em países considerados desenvolvidos
A Luta na América Latina: Um Contexto Compartilhado
A violência de gênero é um desafio global, e a América Latina não é exceção. Infelizmente, a região enfrenta taxas alarmantes de feminicídio e outras formas de violência contra mulheres, impulsionadas por machismo estrutural, desigualdade e impunidade. Esses elementos têm raízes profundas nos legados da colonização, que impuseram estruturas de poder patriarcais e hierárquicas, desvalorizando a mulher e legitimando formas de controle e violência que se perpetuaram ao longo dos séculos.
Dentro desse contexto, a situação das mulheres indígenas é particularmente alarmante. Elas são duplamente impactadas pela violência de gênero e pelo racismo estrutural e histórico, que as tornam ainda mais vulneráveis. As consequências da colonização, incluindo a desterritorialização, a destruição de culturas e a imposição de lógicas de exploração, expuseram as mulheres indígenas a níveis desproporcionais de violência, que vão desde a sexual e física até a territorial e ambiental.
A violência contra a mulher resulta em vozes silenciadas pelo ódio e pelo patriarcado. Muitas histórias permanecem não contadas, exigindo que levantemos nossas vozes em solidariedade e resistência. É crucial que relembremos das irmãs Mirabal na luta por justiça e contra a violência. O que muitas mulheres latinas vivenciam no exterior, embora em um contexto diferente. Ainda ressoa com as realidades de seus países de origem, tornando o apoio e a informação ainda mais cruciais para quem está longe de sua rede de apoio tradicional.
Onde Buscar Ajuda: Linhas de Apoio e Recursos
Se você ou alguém que você conhece está sofrendo violência, não hesite em procurar ajuda. Há organizações dedicadas a oferecer suporte, aconselhamento e segurança. Lembre-se: você não está sozinha.
No Reino Unido:
Specific BME/Migrant Women’s Organizations: Muitas cidades têm organizações especializadas no apoio a mulheres de minorias étnicas e migrantes, que podem oferecer suporte em vários idiomas e com compreensão cultural. Procure por “migrant women domestic abuse support [sua cidade/região]”.
National Domestic Abuse Helpline (Linha Direta Nacional de Abuso Doméstico): 0808 2000 247 (Atendimento 24h, gratuito e confidencial). Operado pela Refuge.
Women’s Aid: Oferece recursos online e informações sobre serviços de apoio locais. (Pesquise por “Women’s Aid” e sua área).
Galop (para a comunidade LGBTQ+): Linha de apoio a vítimas de violência doméstica e crimes de ódio.
Latin American Women’s Aid (LAWA): Organização que oferece apoio especializado a mulheres latino-americanas no Reino Unido que sofrem violência de gênero, incluindo abrigo seguro, aconselhamento e apoio prático.
Coalition of Latin Americans in the UK (CLAUK): Uma organização que congrega várias entidades que trabalham com a comunidade latino-americana no Reino Unido, o que pode ser um ponto de partida para encontrar recursos e apoio mais específicos. Informações estão disponíveis no site da CLAUK.
Na Irlanda:
Latina Women Against Violence (LWAV): Um grupo comunitário sem fins lucrativos, gerido por e para mulheres migrantes latino-americanas na Irlanda, que luta contra a violência doméstica e outros tipos de violência contra mulheres. Elas buscam preencher a lacuna entre as mulheres que vivenciam violência de gênero e os serviços disponíveis na Irlanda. Você pode procurar por elas nas redes sociais.
Women’s Aid Ireland: Oferece uma linha direta nacional gratuita 24 horas por dia: 1800 341 900. Embora não seja especificamente latina, eles podem oferecer suporte em até 240 idiomas através de serviço de interpretação telefônica.
Outras organizações locais: Assim como no Reino Unido, muitas cidades na Irlanda têm organizações de apoio a migrantes e mulheres que podem oferecer suporte em vários idiomas e com sensibilidade cultural.
Na União Europeia:
UE 116 016: Uma linha de apoio pan-europeia para vítimas de violência contra as mulheres, que fornece aconselhamento e apoio
Assistência consular
Independentemente do país de origem na América Latina, você pode entrar em contato com sua embaixada ou consulado se estiver vítima de violência, abuso ou golpe no exterior.
Eles podem oferecer informações, orientação, apoio básico e conexão com serviços locais de proteção.
Você não está sozinha!
Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, não hesite em procurar os serviços listados. A informação é o primeiro passo para a segurança.
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