Já são 7 anos vivendo no Reino Unido, e ao longo desse tempo, tive a oportunidade de me aproximar dos britânicos de diferentes maneiras. Morando fora de Londres, no interior da Inglaterra me fez olhar de perto e autenticamente a eles, longe do glamour, além de conviver com outros imigrantes também. Os choques culturais continuam fazendo parte do meu cotidiano, mas a realidade, com suas lições inesperadas, me deu um verdadeiro banho de água fria, corrigindo alguns equívocos que eu cometia. Antes, eu era completamente apaixonada pelo Reino Unido, mas essa experiência mudou a forma como vejo as coisas – como dizem por aí, o amor é cego.
Antes, eu via o Reino Unido como a terra da inteligência, afinal, é o berço de gênios em diversas áreas do conhecimento. No universo literário, alguns dos grandes nomes são Jane Austen, Virginia Woolf, Charles Dickens, George Orwell e William Shakespeare. No mundo da ciência, tivemos Alexander Graham Bell, Isaac Newton, Stephen Hawking, Charles Darwin e Alan Turing. Nas artes, nomes icônicos como Amy Winehouse, Alfred Hitchcock, Audrey Hepburn e Elizabeth Taylor marcaram a história. Além disso, o país abriga algumas das instituições de ensino mais prestigiadas e renomadas do mundo, como a University of Oxford e a University of Cambridge. Na ficção, personagens como James Bond, Sherlock Holmes e Miss Marple ajudaram a moldar o imaginário britânico.
Hoje, vejo essa percepção como um grande equívoco e reflexo de um olhar eurocêntrico. Existem múltiplos tipos de inteligência, indivíduos brilhantes e instituições acadêmicas de prestígio na América Latina. Além disso, os britânicos podem ser tão etnocêntricos e arrogantes.
As boas maneiras sempre são retratadas nos diálogos de personagens britânicos. Suas falas costumam estar repletas de verbos modais, pares adjacentes e, frequentemente, terminam com o advérbio please. Além disso, há elementos paralinguísticos, como o hábito de segurar a porta para alguém e o respeito rigoroso às filas, reforçando a percepção de que os britânicos são extremamente educados.
Às vezes, essa polidez é levada tão a sério que a Inglaterra também é representada como uma espécie de “escola de etiqueta”, com regras rígidas para crianças desobedientes e rebeldes. Isso fica evidente em reality shows britânicos como Supernanny e World’s Strictest Parents. Mas não se limita apenas à criação de filhos – essa severidade também aparece no mundo do entretenimento, com jurados implacáveis em programas como MasterChef, Britain’s Got Talent e Hell’s Kitchen. Essa representação de figuras de autoridade rígidas começa cedo, seja no ambiente escolar ou dentro de casa. Filmes como Wild Child, The Wall, Peter Pan (2003), Nanny McPhee e a série Harry Potter (especialmente na figura do professor Severus Snape) reforçam essa ideia.
A realidade? Essa polidez esconde um povo frio e distante (apesar da proximidade física em locais públicos), mestres na arte da conversa fiada e, por trás do tão celebrado “humor sarcástico”, muitas vezes há microagressões disfarçadas. Apesar de ter um povo rebelde.
É interessante pensar na Inglaterra como um lugar mágico, que inspirou inúmeros escritores em suas histórias mais icônicas. A literatura britânica é repleta de mundos distintos, cheios de magia e fantasia. Você é bem-vindo onde quiser: Hogwarts, Nárnia, o País das Maravilhas, a Terra do Nunca, a Terra Média e muitos outros.
Se fantasia não for seu gênero favorito, não há problema – sempre há uma onda literária para todos surfarem. Os cenários vão além do imaginário e podem ser encontrados em locais reais no Reino Unido ou espalhados pelo mundo. Algumas histórias se passam em épocas diferentes, desde o passado até futuros distópicos.
Talvez a magia seja a rota de escapismo desses escritores, afinal, a realidade que os cerca muitas vezes se resume a céus cinzentos, chuvas e ventos – às vezes neblina, raros dias de sol.
Meu sangue carioca e minha alma carnavalesca alimentaram a ilusão de que todos os lugares são cheios de vibração. Incluindo a Inglaterra, afinal, é a terra natal de Julie Andrews e de vários artistas que fazem parte das minhas playlists diárias: The Beatles, The Rolling Stones, Elton John, Queen, David Bowie, Oasis, Blur, Amy Winehouse, Radiohead, Fleetwood Mac, Coldplay.
Apesar de ter descoberto novos nomes para meu repertório musical e de invariavelmente encontrar artistas de rua ou locais com música ao vivo, tenho testemunhado a cultura em decadência. O pub onde nasceu o heavy metal e o Black Sabbath fechou suas portas, o cinema mais antigo do Reino Unido encerrou suas atividades, e mercados alternativos locais desapareceram. Além disso, alguns espaços culturais foram simplesmente abandonados.
Vindo de um país em desenvolvimento, cresci cercada pela desigualdade socioeconômica. Enquanto isso, a Europa sempre foi vista como um continente desenvolvido, antigamente categorizado como parte do “Primeiro Mundo”. Na escola, aprendemos sobre ícones da literatura que partiram para países europeus em busca de estudo e melhores oportunidades. Se retornassem, eram sempre vistos como mais cultos e brilhantes.
Quando eu era mais jovem, assistia Alice no País das Maravilhas, e, curiosamente, em cada versão ou referência intertextual da história, o chá das cinco com o Chapeleiro sempre aparecia com uma mesa impecável, repleta de porcelana chique. O mesmo acontecia com The Parent Trap, onde a justaposição das vidas de Annie e Hallie reforçava essa visão de um Reino Unido sofisticado. Mais tarde, aprendemos sobre a Família Real Britânica, os palácios, os castelos e o sistema de Monarquia Parlamentar.
Essa soma de influências ajudou a construir a ideia de que a Inglaterra era um lugar de luxo, reforçada pelo sotaque britânico sempre retratado como charmoso. Essas presunções se enraizaram em nosso imaginário, mesmo que a maioria de nós nunca tivesse pisado lá. Por outro lado, talvez isso faça parte do famoso “complexo de vira-lata”.
A realidade? O Reino Unido abriga uma pluralidade de sotaques e socioletos, para muito além de Londres e o luxo é algo muito mais específico do que parece. O que se encontra com mais facilidade é o brega – bronzeamento artificial exagerado, extensões de cílios, cirurgias plásticas em excesso, roupas vulgares ou desleixadas, incluindo pijamas e moletons no dia a dia.
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