Crônicas Culturais de Cannabis e a Proibição dos Vapes

Em junho de 2025, o Reino Unido implementará a proibição dos cigarros eletrônicos descartáveis, que entrará em vigor no dia 1º de junho. Essa nova legislação tornará ilegal vender, fornecer ou possuir esses dispositivos, inclusive os que não contêm nicotina.

A medida visa combater o crescente uso de vapes, especialmente entre adolescentes, que, segundo estatísticas recentes, têm demonstrado um aumento alarmante no consumo. Estima-se que cerca de 30% dos jovens entre 13 e 17 anos já tenham experimentado o vape, enquanto 15% são usuários regulares — números impulsionados pela acessibilidade, conveniência e campanhas de marketing direcionadas, além da falsa percepção de que o vape é menos prejudicial do que o cigarro tradicional.

Paralelamente, imigrantes latinos na Europa enfrentam um desafio ainda maior devido ao preconceito enraizado que associa erroneamente sua identidade cultural ao narcotráfico. Essa estigmatização reforçada por discursos midiáticos e políticos confunde cultura, história e criminalidade, aumentando a vulnerabilidade dessas comunidades. A associação dos latinos ao tráfico alimenta um perfil racial que os expõe desproporcionalmente a abordagens policiais e discriminações no mercado de trabalho e acesso à moradia, intensificando barreiras sociais e econômicas.

Esse contexto complexo impacta diretamente a vida desses imigrantes, criando obstáculos legais e sociais que também interferem na política antidrogas. A criminalização do consumo e posse de substâncias como a cannabis ignora a profunda relação cultural e social que muitas comunidades latino-americanas mantêm com essa planta, e contribui para a marginalização contínua de seus usuários.

Jazz, Cannabis e Racismo nos EUA

A música jazz se originou nas comunidades afro-americanas de Nova Orleans, Louisiana, no final do século XIX e início do século XX. Desde a década de 1920, conhecida como a Era do Jazz, o jazz tem sido reconhecido como uma grande forma de expressão musical. Os músicos de jazz foram pioneiros em usar referências à cannabis, popularizando termos de gíria como reefer, gauge, jive e weed. A erva ajudava os artistas a improvisar e inovar.

Durante as primeiras três décadas do século XX, com a urbanização e a integração das comunidades negra e branca, havia ansiedade e proibição, apesar da segregação. Racistas e xenófobos poderosos aproveitaram as plataformas emergentes de mídia, como jornais, filmes e propagandas televisivas, para fomentar o ódio contra minorias que fumavam maconha no Texas e Nova Orleans, além de disseminar notícias falsas.

O Movimento Hippie e o Surgimento da Maconha na Cultura Popular

O movimento hippie foi caracterizado por um compromisso com a paz, amor e liberdade pessoal, junto com a adoção de estilos de vida alternativos, moda não convencional e música, além da experimentação com drogas e foco na justiça ambiental e social. O Movimento Beat, que rejeitava a cultura dominante e defendia a libertação espiritual e artística, inspirou o movimento hippie.

Esse período marcou o surgimento da maconha na consciência mainstream e o início da guerra às drogas nos Estados Unidos, entrelaçada com racismo velado. O ex-presidente Nixon contra a legalização; heroína (comunidade negra) versus maconha (comunidade branca).

A Invasão Britânica e a Cannabis na Música dos Anos 60 e 70

Esse movimento cruzou o Oceano Atlântico e lançou as bases para a Invasão Britânica, que se refere ao influxo de bandas de rock britânicas que alcançaram sucesso internacional no início a meados da década de 1960. O espírito de rebelião contra a cultura dominante, a valorização da espontaneidade e da expressão individual, e a exploração de temas tabus podem ter ressoado com alguns músicos e artistas britânicos.

Figuras-chave da Invasão Britânica, como The Beatles, The Rolling Stones e Pink Floyd, fizeram referências à cannabis em suas músicas, refletindo a prevalência da droga nos movimentos contraculturais das décadas de 1960 e 1970. Por exemplo, a cannabis é mencionada implicitamente em músicas como “Got to Get You into My Life” (The Beatles), “My Generation” (The Who), “Comfortably Numb” (Pink Floyd), “We Love You” (The Rolling Stones) e “Sweet Leaf” (Black Sabbath).

Reggae, Rastafari e a Cannabis na Jamaica

Em meados da década de 1970, houve o surgimento da música reggae com nomes de destaque como Bob Marley e Peter Tosh. O berço do reggae foi na Jamaica, com letras que se opunham aos resquícios do colonialismo britânico e promoviam a cultura Rastafari.

Esse movimento começou no início do século XX, com o Imperador Haile Selassie I da Etiópia sendo considerado a encarnação de Deus (Jah). As práticas Rastafari incluem o uso sacramental da cannabis, a adesão a uma dieta vegetariana ‘ital’ e princípios de harmonia com a natureza e igualdade para todos.

A música reggae teve um papel significativo em popularizar termos como ‘ganja’ e ‘kaya’ como nomes alternativos para a maconha, além de defender seus benefícios medicinais.

Hip-Hop, Racismo e Legalização da Cannabis nos Anos 80

Na década de 1980, nasceu a cena musical do Hip Hop e Rap no Bronx, em Nova York, coincidindo com outra fase de proibição da maconha nos Estados Unidos. Durante esse período, o governo do presidente Ronald Reagan usou propaganda, disseminou notícias falsas e intensificou a aplicação da lei contra as comunidades negra e latina, enquanto negligenciava o problema do uso de crack e cocaína em comunidades predominantemente brancas.

Apesar desses desafios, artistas de Hip-Hop e Rap aproveitaram a oportunidade para defender a legalização e conscientização da cannabis por meio de suas plataformas. Artistas como Red Man, Method Man, Cypress Hill e Snoop Dogg surgiram não apenas no Bronx, mas também na Costa Oeste, divulgando a cultura da cannabis e seguindo os passos de pioneiros como Jack Herer. Abrindo caminho para outros popstars como Miley Cyrus e Lady Gaga.

Cannabis e Racismo no Brasil: História e Resistência Cultural

É importante notar que a proibição da cannabis não se limita aos Estados Unidos ou Reino Unido; ela também teve impacto significativo no Brasil. A chegada da cannabis ao Brasil foi através dos escravos africanos, que a usavam como forma de se reconectar com suas terras natais e como alívio do trabalho forçado e humilhação.

Os colonizadores portugueses instituíram o cultivo do cânhamo, que eventualmente se espalhou pelo mundo e foi até utilizado por comunidades indígenas. Porém, enquanto o uso da cannabis era livre e comum entre pessoas brancas por seus supostos benefícios à saúde, as medidas repressivas contra a comunidade negra se intensificaram no século XIX, especialmente com a implementação de leis como a ‘lei dos vagabundos’ que visavam injustamente indivíduos ligados a atividades associadas à cultura africana.

Apesar desses desafios, a comunidade negra demonstrou notável resiliência e resistência por meio do desenvolvimento de práticas culturais como religiões como Umbanda e Candomblé; ritmos como samba, maracatu, axé, coco, afoxé, entre outros.

A Influência da Cultura e a Luta Pela Legalização no Brasil

A música sempre foi uma forma poderosa de expressão cultural e resistência na América Latina.

A influência dos movimentos contraculturais trouxe a erva para o mainstream, embora de forma subterrânea, pois vivíamos sob os anos de chumbo — a ditadura militar de 21 anos marcada por autoritarismo, violações de direitos humanos, perseguição política, exílio e censura.

Por meio dos artistas do rock e da MPB (música popular brasileira), que chegaram a ser presos por posse de maconha, a história se repetiu com reggae, funk carioca e rap na democracia, com os artistas aproveitando suas plataformas e influência para comentar sobre a erva. Até a sua legalização no país em 2024.

Cannabis e culturas indígenas na América Latina

Antes da chegada dos colonizadores europeus, as culturas indígenas da América Latina já possuíam uma rica relação com plantas psicoativas, incluindo a cannabis. Embora a cannabis não seja nativa das Américas, há evidências de seu uso em algumas comunidades indígenas. 

Com a chegada dos colonizadores espanhóis no século XVI, a cannabis foi introduzida nas Américas para uso industrial, como na produção de fibras para tecidos e cordas. No entanto, ao longo do tempo, especialmente no século XIX, a cannabis passou a ser associada a práticas marginalizadas e estigmatizadas, como o uso recreativo entre as classes populares e indígenas.

Essa luta também se reflete na música latina. Durante os períodos de ditadura, a cannabis deixou de ser vista como um elemento cultural e espiritual e passou a ser enquadrada como símbolo de ameaça à ordem. Jovens, camponeses e artistas foram presos ou perseguidos por seus estilos de vida, e o uso da planta era frequentemente utilizado como justificativa moral para punição e censura. A guerra às drogas, importada dos Estados Unidos, foi usada como ferramenta para enfraquecer movimentos de base e justificar a repressão estatal.

Hoje, essa resistência continua viva em gêneros como a cumbia villera, o reggae en español, o hip-hop latino, o reggaetón das antigas e a cumbia alternativa — onde a cannabis ainda aparece como símbolo de identidade, denúncia e liberdade.

A interseção entre cannabis, música e identidade latina na Europa é um reflexo da complexidade e diversidade das experiências imigrantes. Enquanto enfrentam desafios relacionados à estigmatização e criminalização, muitos imigrantes latinos utilizam a música como uma ferramenta de expressão e resistência, celebrando suas raízes culturais e promovendo diálogos sobre temas como a legalização da cannabis.

Através da música, do ativismo e da construção de comunidades solidárias, os imigrantes latinos estão contribuindo para a transformação da narrativa em torno da cannabis, desafiando estigmas e reivindicando o direito de viver e expressar suas culturas.

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