Em 1900, o delegado Eneas Galvão usou o termo “favela” de forma pejorativa ao se referir ao Morro da Providência. Mal sabia que essa palavra se tornaria um símbolo duradouro do Brasil. Em resposta, os moradores decidiram transformar o dia 4 de novembro em uma data de reconhecimento. O termo “favela” nasceu durante a Guerra de Canudos, inspirado em um morro coberto por uma planta da região. Hoje, vamos explorar a história desse ícone brasileiro. Símbolo de desigualdade, berço cultural, musa do cinema nacional e alvo de estereótipos no olhar estrangeiro. Tendo até alguns equivalentes no Reino Unido.
Formação das Favelas:
Abolição da Escravidão e Cortiços
O século XIX no Brasil foi marcado pela abolição gradual da escravidão, culminando na assinatura da Lei Áurea em 1888. No entanto, essa conquista não veio acompanhada de reparação histórica ou de direitos trabalhistas para os ex-escravizados. Assim, eles foram deixados à margem da sociedade, sem acesso a recursos básicos.
Os cortiços, moradias precárias, se popularizaram no Rio de Janeiro, abrigando aqueles considerados “descartáveis” — negros, nordestinos, prostitutas, capoeiristas e mulatos. Esses cortiços eram geralmente compartilhados por diversas famílias. Eles eram localizados nos centros das grandes cidades para facilitar a comutação de trabalhadores assalariados. O maior cortiço do centro carioca era chamado Cabeça de Porco.
Reforma Pereira Passos
No final do século XIX, muitas casas e cortiços foram demolidos. Em nome da reurbanização, saneamento básico e da tentativa de “civilizar” o centro da cidade maravilhosa. Com o objetivo de transformá-la em uma “nova Paris” planejada para as elites durante a chamada Reforma Pereira Passos. Essa remodelação urbana ocorreu entre 1903 e 1906, durante o mandato do prefeito Francisco Pereira Passos. As pessoas consideradas indesejáveis foram transferidas para regiões periféricas precárias, longe dos olhos da classe dominante e áreas centrais.
Guerra dos Canudos
Essa exclusão urbana não só reforçou a segregação social. Porém, também lançou as bases para a criação das primeiras favelas nos morros do Rio de Janeiro. Nesse período, outra população vulnerável se uniu aos marginalizados: os soldados que haviam lutado na Guerra de Canudos. Ao retornarem ao Rio, esses soldados, apesar da promessa de moradia, encontraram pouco apoio. Foram forçados a improvisar suas habitações nos morros da cidade.
Favela: Berço Cultural
Samba
As raízes do samba remontam ao século XVIII, entre os africanos escravizados no Brasil. Nos engenhos de cana do Nordeste, nas fazendas de café e nas minas do Sudeste, eles criavam ritmos com os próprios corpos, por falta de instrumentos, inspirados em sons africanos e influências europeias. O termo “samba” vem do Kimbundu semba, que significa “convite para dançar” — e também nomeava as festas dos escravizados.
Com a abolição, muitos ex-escravizados migraram para o Rio de Janeiro, onde o samba ganhou força nos morros, nas casas das “tias” baianas e nos terreiros — espaços de culto e preservação da cultura afro-brasileira, como a Capoeira, o Candomblé e a Umbanda, especialmente na região conhecida como Pequena África.
Essas expressões culturais, no entanto, eram criminalizadas. A “lei da vadiagem” permitia prender quem praticasse manifestações africanas, incluindo o simples uso de instrumentos de percussão. Ainda assim, a resistência negra foi crucial para manter o samba vivo com espaço nas rádios.
Na década de 1930, o presidente Getúlio Vargas descriminalizou e incorporou o samba à identidade nacional. Desde então, o gênero se associou ao Carnaval e floresceu em inúmeros subgêneros, consolidando-se como um dos pilares da música brasileira.
Funk Carioca
O funk chegou ao Brasil nos anos 1970 pelas mãos de Tim Maia, que, após viver nos EUA, trouxe influências do funk estadunidense e as misturou com ritmos nacionais, criando um som autêntico e cheio de identidade. Na mesma época, o radialista Big Boy ajudou a popularizar o gênero com os “Bailes da Pesada”, que reuniam jovens negros cariocas e deram origem ao movimento Black Rio.
Com o tempo, o gênero evoluiu. Surgiram os “bailes funk”, influenciados pelo Miami bass, e nos anos 1980 o funk carioca começou a tomar forma, misturando hip hop, afrobeat, percussões do Candomblé e a criatividade dos DJs. Há até quem relacione suas raízes à musicalidade dos escravos. Desde então, o gênero se diversificou em vários subgêneros, incorporando identidades regionais e referências internacionais.
Apesar do sucesso, o funk ainda é alvo de preconceito, marcado por estigmas relacionados às suas origens periféricas e à aporofobia racial. Letras sensuais e polêmicas alimentam debates sobre objetificação, mas também há artistas que usam o gênero como ferramenta de empoderamento e expressão social.
Hoje, o funk ultrapassa fronteiras, presente em clubes internacionais e grandes eventos, com artistas como Anitta levando o som brasileiro ao mundo. O ritmo segue crescendo, oferecendo visibilidade e oportunidades para quem historicamente foi marginalizado. Em 2025, o gênero bate mais um recorde: pelo segundo ano consecutivo, o funk carioca marca presença nas indicações de premiações estadunidenses.
RAP
O rap nasceu na Jamaica dos anos 60 nas festas dos guestos de grupos de músicos. Elas surgiram pelo nascimento dos amplificadores de som que tornaram possível fazer uma balada na boate ou na rua do gueto.
Os donos dessas “baladas” eram DJs, conhecidos como toasters. Então, eles colocavam todo mundo para dançar com base em palavras rimadas e reggae. A princípio, os temas eram descontraídos. Porém, com o passar do tempo, eles começaram a falar sobre questões políticas e sociais. Além disso, as batalhas de improviso também surgiram nessa época. Quem não concordasse com o que um toaster vinha rimando, podia cantar e desafiá-lo com outros versos.
Chegou no Brasil através dos Estados Unidos nos anos 80 e se consolidou na década seguinte. O gênero é plataforma do brasileiro das favelas e periferia para a sua realidade.
Favela: Musa do Cinema
Curiosamente, a favela é o grande “maçã dos olhos” dos cineastas brasileiros. Sendo cenário e tema recorrente da dramaturgia. Começou com Favela dos Meus Amores( Humberto Mauro, 1935), sendo um dos primeiros filmes a abordar as questões sociais ligadas às favelas do Rio de Janeiro. Infelizmente, a única cópia conhecida do filme foi perdida em um incêndio na década de 1960.
Favela do Cinema Novo
Rio 40 Graus( Nelson Pereira dos Santos, 1955) e Cinco Vezes Favela ( Miguel Borges e outros 4, 1962) destacaram mais o cenário das favelas. É importante destacar que Rio 40 Graus foi um dos filmes que influenciaram o início do Cinema Novo no Brasil. Esse movimento surgiu nas décadas de 1960 e 1970, misturando ideias de dois estilos de cinema que vinham da Europa. A Nouvelle Vague da França e o Neorrealismo da Itália. O Cinema Novo rompeu com o jeito tradicional de fazer filmes, trazendo novas formas de contar histórias. Ele se inspirou na ousadia dos franceses e nas histórias realistas dos italianos, mas adaptou tudo isso à realidade brasileira.
Diferente dos filmes mais populares da época que eram principalmente musicais e comédias, inspirados em Hollywood. Os diretores colocaram em cena as favelas, o sertão e as pessoas mais pobres, dando voz a quem antes era invisível no cinema. Esses filmes desafiavam as regras e questionavam a sociedade da época.
Orfeu Negro ou Orfeu do Carnaval (Marcel Camus, 1959) é inspirado na lenda grega de Orfeu e Eurídice com o contexto moderno do Rio de Janeiro durante o Carnaval. Sua importância vai além de ser a primeira produção de língua portuguesa a conquistar o Oscar. O filme se destaca pelo brilho com que celebra a cultura negra brasileira nas favelas com samba e bossa nova. Destacando o talento e a beleza dos protagonistas negros, transmitindo um retrato vibrante do Brasil ao mundo. Enquanto a cinematografia captura a essência do Carnaval carioca.
Efeito de Cidade de Deus
Outro exemplo notável é Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002). Este conta a vida da favela de Cidade de Deus entre as décadas de 60 e 80 através das lentes de Buscapé, um aspirante a fotógrafo. Esse filme ganhou destaque internacional nos grandes prêmios de cinema. Ao retratar a favela, Meirelles foi muito minucioso, inclusive contratando atores não profissionais.
Cidade de Deus foi a semente para muitos outros filmes que exploram as diferentes camadas da vida nas favelas cariocas, abrangendo uma variedade de gêneros e histórias com uma mistura de entretenimento com comentário social. Por exemplo, Tropa de Elite (José Padilha, 2007), Era Uma Vez (Breno Silveira, 2008) e Sonhos Roubados (Sandra Werneck, 2009), entre tantos outros. No entanto, o sucesso estrondoso de Cidade de Deus também contribuiu para o estereótipo que os estrangeiros têm sobre o Brasil.
Favela na teledramaturgia
A favela não é somente musa do cinema, mas é importante falar sobre ela na nossa teledramaturgia, A representação das favelas em novelas tem avançado em direção a um realismo mais autêntico, especialmente com os núcleos populares. As primeiras abordagens desse tema começaram em 1984, com Partido Alto. Em seguida, produções como a minissérie Bandidos da Falange e Pátria Minha se aprofundaram na temática, sendo esta última a primeira novela a construir uma pequena favela em cidade cenográfica.
A Rede Record inovou ao gravar cenas diretamente em favelas, como na novela Vidas Opostas, escrita por Marcílio Moraes, onde o diretor Alexandre Avancini filmou grande parte da história na Comunidade Tavares Bastos, no Catete, Zona Sul do Rio, usando moradias reais e conquistando uma das maiores audiências da emissora. A temática ganhou ainda mais relevância com o curta Palace 2, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, exibido na série Brava Gente em 2001. E, em seguida, o fenômeno Cidade de Deus, previamente mencionado, que também influenciou as produções televisivas com locações reais.
Favela no universo do esporte
As favelas brasileiras são berços de histórias inspiradoras, revelando lendas e novos talentos em esportes como o futebol, o atletismo e o jiu-jitsu. Em meio a desafios sociais, muitos jovens encontram no esporte uma forma de superação, reconhecimento e transformação de vida.
Favela no Brasil core
Ao lado da hype latina, há o “Brazil core”, facilmente encontrado em buscas online. O resultado reflete os elementos que compõem uma estética supostamente brasileira. Essa tendência não aparece apenas nas telas, também foi vista nas ruas durante o verão europeu.
Na linha tênue entre o popular e o estereótipo, surgem clichês que transformam o imaginário coletivo em imagens concretas e compartilháveis. Há quem diga que o movimento começou em 2017 e que, no próximo ano, ganhará força com a Copa do Mundo.
Essa estética se aproxima do que, no Brasil, chamaríamos de “moda de favela,” uma moda periférica que por muito tempo foi vista como cafona, revelando aporofobia e outros preconceitos que a acompanham. Agora, quando o olhar vem de fora, ela se torna um produto valorizado. Por outro lado, há quem veja nisso mais uma exportação superficial do país, que ignora sua pluralidade, e que muitos chamam de apropriação cultural.
Favela: Sonhos & Projetos
Nas favelas, habitam muitos sonhos por uma condição de vida melhor, pois a realidade não se resume apenas ao crime e à violência. Existem pessoas e organizações dedicadas a criar projetos que visam reduzir melhorar as condições da sua comunidade.
As favelas brasileiras, movimentando cerca de 202 bilhões de reais por ano segundo o Instituto Data Favela, revelam o potencial econômico e a força empreendedora de seus moradores. A inclusão dessas populações nas políticas públicas é crucial para combater a fome e a pobreza no Brasil, que afetam 70,3 milhões de pessoas em insegurança alimentar moderada e 21,1 milhões em insegurança alimentar grave, conforme um relatório da ONU de 2023.
É crucial reconhecer e abordar essas complexidades, promovendo diálogos e políticas públicas que valorizem a voz e a luta das comunidades. Muitos ainda carregam o estigma do favelado. Muitas dessas complexidades estão ligadas ao racismo estrutural do Brasil, onde a pobreza tem cor. Curiosamente, o Brasil é o país com a maior população negra fora do continente africano. Essa realidade revela como as desigualdades raciais se entrelaçam com questões socioeconômicas, criando um ciclo difícil de romper.
Contudo, enfrentam desafios significativos devido à vulnerabilidade a desastres naturais, como chuvas fortes e deslizamentos de terra. Muitas comunidades estão localizadas em áreas de risco. Onde a falta de infraestrutura e o urbanismo desordenado expõem os moradores a tragédias. A situação é agravada pela presença das forças policiais, cuja atuação muitas vezes resulta em violência e violações de direitos. As invasões policiais não apenas intensificam o clima de medo. Porém também alimentam um ciclo de criminalização que marginaliza ainda mais os habitantes das favelas.
Outskirts, Slum, Suburbs, Estate, Development
Muito se falou sobre as favelas no Brasil, mas pouco se discute sobre a desigualdade no exterior. Você sabia que, no Reino Unido, utilizamos quatro termos que são equivalentes à favela?
Outskirts (Periferia):
Esse termo apareceu pela primeira vez no final do século XVI, em textos do escritor Edmund Spenser. Com o tempo, passou a ser usado para falar das áreas que ficam nas bordas das cidades. Mesmo estando longe do centro, essas regiões continuam ligadas à cidade e fazem parte da sua identidade. Durante a Revolução Industrial, essas áreas cresceram muito e passaram a ter características próprias. Hoje em dia, os “outskirts” aparecem em debates sobre crescimento urbano desordenado, gentrificação e novas formas de viver. Eles também são temas comuns em livros e filmes, geralmente retratando o contraste entre a correria da cidade e a busca por uma vida mais tranquila.
Slum (Morro ou Favela):
Esse termo descreve áreas urbanas muito pobres, com moradias precárias e superlotadas. Ele surgiu como uma gíria no leste de Londres, onde “slum” significava “quarto.” Um espaço de habitação pequeno e apertado. A partir de 1820, passou a indicar bairros com más condições de vida. Já por volta de 1845, surgiu o termo “back slum”, que se referia a becos e ruas onde moravam pessoas marginalizadas. Entre os anos 1890 e 1930, o governo criou leis para tentar acabar com esses bairros. Mas, com o crescimento das cidades e a chegada de migrantes, novas áreas de pobreza continuaram surgindo.
Suburbs (Subúrbio):
No Reino Unido, “subúrbio” é uma área residencial fora do centro da cidade, mesmo que ainda esteja dentro dos limites da cidade. Já nos Estados Unidos e no Canadá, “suburb” pode significar tanto um bairro periférico quanto uma cidade menor que fica ao redor de uma cidade maior.
Estate (moradia popular ou conjunto habitacional)
No Reino Unido, estate geralmente se refere a grandes conjuntos habitacionais construídos pelo governo, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, para oferecer moradia acessível à população de baixa renda.
Development:
Esse termo se refere a regiões pobres, com muitos desempregados, onde o governo tenta incentivar o crescimento econômico. Isso é feito, por exemplo, com a criação de indústrias e vagas de trabalho. Essas áreas geralmente enfrentam muitos desafios: falta de infraestrutura, baixa escolaridade e pouco acesso a serviços públicos. A ideia das políticas de desenvolvimento é melhorar a vida nessas comunidades, trazer investimentos e gerar empregos sustentáveis.
Favela invisível no Reino Unido
Apesar de termos explorado o termo “favela” por uma ótica urbana e histórica, é importante lembrar que muitos desses espaços no Reino Unido são habitados por populações racializadas e imigrantes. Eles enfrentam desafios estruturais semelhantes: falta de acesso, discriminação e exclusão. Também é falar de colonialismo, raça e pertencimento. É nesses lugares onde laços são criados, e onde a cultura renasce, ainda escondida no underground, misturando-se com outros grupos minoritários, há latinidade que se adapta aos gêneros locais.
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