De um lado este Carnaval, de outro é caos total. Talvez você esteja visitando Londres, ou quem sabe seja um recém-imigrante – mas não se surpreenda ao pegar o metrô no dia 12 de janeiro e se deparar com pessoas sem calças na estação. Esse é o famoso “No Trousers Tube Ride”. O evento teve início em Nova York, em 2002, criado pelo comediante Charlie Todd, mas conquistou os londrinos em 2009.
Em Londres, tudo começou com o personal trainer Dave Selkirk, que reuniu um grupo na estação Piccadilly Circus. O evento tornou-se um marco de janeiro, um mês geralmente monótono, frio, escuro e cinzento. Com o objetivo de trazer diversão, quebrar tabus sobre os corpos alheios e desafiar normas sociais, ele transformou o dia em algo único e inesquecível.
É claro que tal acontecimento gera burburinho nas grandes mídias – seja em jornais ou nas redes sociais. Algo que gostaria de destacar são as manchetes e os títulos das thumbnails, que geralmente são escolhidos com foco no engajamento. Quanto mais polêmico, melhor para as visualizações. Assim, não é surpresa que alguns veículos mais tendenciosos chamem esse fenômeno, se é que podemos chamá-lo assim, de “tradição”.
Curiosamente, são os mesmos que rotulam nosso Carnaval como um comportamento vulgar, recheando matérias com imagens de sambistas seminuas.
É importante realçar alguns detalhes sobre essa nossa tradição.
Primeiro, ela geralmente acontece no auge do verão, entre fevereiro e março, nos 40 dias que antecedem a Páscoa. Imagine o sol escaldante no asfalto, onde o calor humano permanece, enquanto pessoas fantasiadas dançam ao som do mesmo tambor uma vez por ano, disfarçando as diferenças que as separam na vida cotidiana. As cores se chocam contra o concreto cinza dos centros urbanos. Confetes, serpentinas, espuma de festa e brilhos adornam os rostos dos cidadãos.
Segundo, essa tradição não é exclusivamente nossa e remonta a séculos atrás, com o Egito (Navigium Isidis) e o Império Romano (Saturnalia e Lupercalia). Na Idade Média, Veneza adaptou os costumes e criou a sua versão, que é tão prestigiada até os dias atuais. Esse acontecimento influenciou o continente europeu, em particular a Península Ibérica, que espalhou tal costume para suas colônias. E assim chegou ao Brasil.
Um adendo importante: começamos a tradição com o “entrudo familiar”, que era comum nas casas da elite, onde se usavam limões de cheiro (pequenas bolas de cera cheias de água perfumada). Enquanto isso, os escravizados africanos protagonizavam o “entrudo popular”, pintando os seus rostos com farinha e brincando de ‘molhadela’. Eles espirravam líquidos fétidos e jogavam comida velha uns nos outros, o que era considerado violento e ofensivo. Consequentemente, as autoridades criminalizaram e reprimiram essa prática nas ruas durante o século XIX.
Ainda não para por aí. A elite, influenciada pela aristocracia europeia, celebrava com bailes de máscaras em teatros e clubes. A alta sociedade até formou comunidades que podiam desfilar pelas ruas, incorporando influências francesas, como serpentina, confete e buquês. Enquanto isso, as classes mais baixas buscavam criar versões mais socialmente aceitáveis de suas festividades, levando à criação do “cordão” e do “rancho”. O primeiro era uma mistura de estética religiosa e expressões populares, como “capoeira” e “Zé-Pereira”, enquanto o último se caracterizava por uma procissão de estilo mais rural.
Outro Carnaval famoso no Brasil acontece no Nordeste. Acredita-se que a primeira celebração brasileira tenha sido realizada em Pernambuco, em 1553. Na Bahia, o afoxé e o axé surgiram, honrando e celebrando a cultura africana. Enquanto isso, no Recife, o frevo e o maracatu se desenvolveram, junto com os icônicos bonecos gigantes de Olinda. Hoje em dia, temos esses ritmos tradicionais, assim como o samba de coco, a ciranda, o coco e o cavalo-marinho, além de uma pegada mais contemporânea com o afoxé e o manguebeat.
Essas tradições, junto com muitas outras, evoluíram continuamente e se fundiram nas diversas celebrações e ritmos que vemos hoje, das marchinhas aos ritmos mais populares, como o funk carioca no Sudeste. O nome “marchinha” remonta às marchas militares, pois a batida lembra essas fanfarras. Embora as marchinhas tenham surgido pela primeira vez no século XIX, sua popularidade atingiu o pico entre 1920 e 1960. Carmen Miranda, que fez sua estreia durante esse período, é a voz por trás de muitas das mais famosas.
O samba foi incorporado ao Carnaval brasileiro na década de 1930, graças ao ex-presidente Getúlio Vargas, que descriminalizou o gênero, tal como a cultura negra que foi criminalizada por muito tempo. Apesar dessa mudança, o racismo persistiu. O samba se tornou parte integrante da identidade brasileira e agora está inextricavelmente ligado ao Carnaval.
Enquanto o funk carioca está gradualmente emergindo das sombras e até mesmo sendo considerado para um dia especial, em 25 de julho, ele mistura batidas eletrônicas do hip hop e afrobeat com percussão de candomblé e poesia de rap. Apesar de sua popularidade nas paradas e festas, o gênero continua a evoluir e a influenciar a música brasileira, mesmo que ainda sofra muito estigma. Essa fusão cria batidas repetitivas combinadas com melodia, e a música frequentemente aborda a vida cotidiana nos subúrbios e favelas cariocas, destacando suas duras realidades e servindo como uma plataforma para questões sociopolíticas. Aos poucos, o funk está se expandindo dentro desse cenário para outras vozes além de homens héteros e cis. Esses desenvolvimentos refletem os diversos grupos sociais e culturais que moldam a rica herança e identidade do Brasil.
O Carnaval tem como objetivo reunir os brasileiros no mesmo espaço e tempo, combatendo as divisões sociais e políticas que eles enfrentam diariamente. Ele fomenta um senso de orgulho nacional por meio de expressões socioculturais, exemplificadas pelas letras de samba-enredos e pelos desfiles das escolas de samba. No entanto, por baixo de cada grama de serpentina, o Brasil continua a lutar com questões pesadas.
Essas camadas são totalmente ignoradas pelos veículos de mídia, que priorizam a visualização em detrimento da sensibilidade cultural, do etnocentrismo e da diversidade. Essas sutilezas, nem tão sutis assim, reforçam os pré-conceitos de muitos e ainda fazem uma lavagem cerebral a respeito de um país tão plural como o nosso. O que muitas vezes semeia uma fantasia e estereótipos sexualizados sobre as mulheres brasileiras e latinas, uma imagem que remonta à era colonial e é perpetuada até hoje pela mídia global, contribuindo para uma série de assédios e miniagressões em silêncio — ou nem tão silenciosas assim. Quanto aos britânicos? São os príncipes encantados das comédias românticas, com dentes tortos, educados, às vezes frios e com um senso de humor peculiar.
Afinal, como dizemos no Brasil, pimenta no c* dos outros é refresco.
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