Ser um imigrante torna a sua cultura mais visível, e talvez mais delineada. Porém, às vezes é preciso buscar a si mesmo para manter contato com o que fomos e nos tornamos. Assim como a nossa relação com a nossa língua materna. Eu vim para a Inglaterra antes da reforma ortográfica no Brasil e depois de cursar alguns anos de Letras. Durante o meu curso, analisei sons fonéticos e fui bem fundo em estudos sobre gramática e literatura. Amo minha língua materna pelas palavras e sons da infância que me ajudaram a entender o mundo, mas ainda sinto receio de errar e de não expressar minha cultura plenamente.
Eu falo português todos os dias com minha família, mas escrevo mais em inglês por causa do trabalho. Como, então, manter nossa cultura viva para nós e nossos filhos?
Escreva! Continue escrevendo! Seja em que língua for, e que ainda assim elas se misturem.
Eu amo escrever e acredito que isso pode ajudá-la a se encontrar consigo mesma e com um futuro relativo, numa linha paralela, independente do tempo e do lugar. Lugar e tempo ficam à parte. Depois que deixamos o nosso país, a busca por si mesmo, o que fomos e o que nos tornamos, é real e profunda. Fragmentos são construídos e incluídos, embaralhados com a nova cultura que estamos vivenciando. E como entendemos e documentamos tudo isso? Talvez através de fotos, mas o que acontece dentro da gente , a mistura de línguas e palavras que se invadem mutuamente, fica transparente quando falamos, escrevemos mensagens e criamos posts.
Escreva livros com seus filhos para preservar memórias
Um jeito lindo de manter a sua cultura, documentar essa mudança e até de ver como os seus filhos crescem nessa nova cultura, carregando a cultura do imigrante dentro de si, é escrevendo. De uma forma lúdica e relaxada, sugiro, como professora, imigrante e escritora, que escrevam sobre o seu dia a dia, as suas rotinas, o que gostam de comer juntos, as músicas que ouvem, os lugares que visitam.
Juntos, podem escrever, desenhar e manter esses livros para que seus filhos, ou você, reencontrem momentos valiosos além de fotos digitais ou impressas. Não precisa de muito: uma folha branca A4, lápis ou canetas, lápis de cor ou tinta guache. Como preferir, escreva a sua cultura para uma futura visita e um futuro encontro, para os dias em que estiver procurando por si mesma. Para você, para a sua família e seus filhos, crie esse presente especial.
A importância dos diários para imigrantes
Outra forma de documentar e entender a vida em um novo país é escrever diários. Comecei ainda adolescente, mas só retomei a prática após o nascimento dos meus filhos. Escrever diariamente, ora em minha língua materna, ora em inglês, me ajudou a processar mudanças, compreender minhas experiências, criar histórias e organizar meu pensamento.
Hoje em dia, escrever diários faz parte da minha rotina. Acordo um pouco mais cedo para escrever duas a três páginas. Mesmo nos dias corridos sei que poderei voltar ao diário no dia seguinte, que sempre estará lá para me escutar. É linguisticamente interessante como as duas línguas se mesclam e como, dependendo do assunto, eu dou preferência a certa língua. Também imprimo algumas fotos para ilustrar o meu diário. Num mundo digital, isso me dá a sensação de estar mantendo fisicamente parte de mim.
Continue em contato com sua língua materna
Continue a ter contato com sua língua materna, ensine-a aos seus filhos, mesmo que resistam e que, primeiramente, achem difícil. Apresente a sua língua: leia livros, notícias, ouça música, assista a filmes em ambas as línguas. Continue desenvolvendo o seu vocabulário em ambas as línguas, ou até três ou mais. Que as línguas que se adicionam se complementam e que não sejam substituídas. Assim, você se encontrará em meio às palavras que ouve e escreve!
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