Especial de Carnaval: Ô Abre Alas Que Elas Vão Passar

Em poucos dias para começar Março, o mês das mulheres internacionalmente e Carnaval, além de marcarmos 90 anos sem Chiquinha Gonzaga, seu espírito ainda se faz presente. Com isso em mente: ô abre alas, que elas vão passar!

O Carnaval transcende o estereótipo de mulheres com trajes sumários dançando samba. Nos bastidores, inúmeras mulheres abriram caminhos, transformando a Sapucaí em um desfile para outras, atraindo estrangeiros com seu charme cativante e roupas curtas.

Vale lembrar os primórdios do Carnaval, quando donas de casa não podiam participar. Mesmo com a evolução das normas sociais, as mulheres frequentemente desempenhavam um papel secundário e, às vezes, invisível, ofuscadas em uma festa dominada por homens.

Até meados do século XIX, as mulheres eram amplamente excluídas das festividades conhecidas como “entrudos”. Essas celebrações iniciais do Carnaval, importadas de Portugal, envolviam batalhas de rua com baldes e pistolas de água. Porém, aos poucos, com o surgimento de influências domésticas, as mulheres começaram a interagir socialmente e até a tomar iniciativas românticas, como jogar limões perfumados em pretendentes.

Nos bailes, as mulheres podiam participar, mas apenas dos balcões, sem se unir às danças no salão. Das janelas dos sobrados, assistiam aos carros alegóricos desfilaram pelas ruas. Contudo, a participação feminina nos “cortejos” não era totalmente proibida; prostitutas polonesas e francesas de casas sofisticadas desfilavam luxuosamente nuas nos carros alegóricos. Inspiradas por essas exibições, mulheres cariocas buscaram o escritor José de Alencar, que sugeriu bailes onde elas pudessem liderar, em vez de permanecerem como espectadoras.

Na segunda metade do século XIX, as restrições à participação feminina no Carnaval começaram a diminuir com o surgimento dos “cordões”, “blocos” e “ranchos carnavalescos”.

Os “cordões” e “blocos” desfilavam pelas ruas, organizados por amigos e famílias de classes menos abastadas. No início, a presença feminina era restrita ou proibida pela polícia. Apenas nas primeiras décadas do século XX, com o fim da repressão, as mulheres passaram a participar mais ativamente. Um nome de destaque é Chiquinha Gonzaga, que compôs a primeira marchinha de Carnaval, “Ó Abre Alas”, em 1899. Esse gênero se tornou símbolo do Carnaval, profundamente enraizado na cultura brasileira.

Outro exemplo de força feminina é Hilta Dias dos Santos, conhecida como Mãe Hilda Jitolu, matriarca do primeiro bloco afro brasileiro, em Salvador. Sua influência elevou a consciência da comunidade negra e inspirou artistas renomados como Gilberto Gil, Carlinhos Brown e Margareth Menezes.

Os “ranchos” trouxeram desfiles mais organizados, com enredos e músicas que incorporavam instrumentos de sopro e cordas. Mulheres desempenhavam papéis fundamentais, criando fantasias e arrecadando fundos, mas suas contribuições iam além dessas tarefas.

Em 1907, surgiram os “corsos” no Rio de Janeiro. Famílias abastadas desfilavam em carros abertos ao longo da Avenida Central. Iniciado pelas filhas do presidente Afonso Pena, o evento logo virou tradição. Enquanto os ricos jogavam confetes e serpentinas de seus carros, as classes trabalhadoras assistiam dos lados da avenida.

O Carnaval como o conhecemos hoje deve muito às “tias” baianas, que abriram suas casas para reuniões de samba, longe da repressão policial. Essas mulheres, como Tia Ciata, foram pioneiras ao criar espaços seguros para a música e a cultura. Sua casa foi o berço do samba, recebendo figuras icônicas como Pixinguinha, Donga e Heitor dos Prazeres.

As primeiras escolas de samba, criadas nos anos 1920 e 1930, marcaram um avanço significativo para as mulheres no Carnaval. Em 1939, Dagmar, da Portela, foi a primeira mulher a tocar bateria. Nos anos 1950, Carmelita Brasil, da Unidos da Ponte, começou a compor sambas-enredo. Em 1965, Dona Ivone Lara rompeu barreiras ao ser a primeira mulher a compor um samba-enredo para uma grande escola de samba, enfrentando o machismo da época.

Contudo, os desafios permanecem. Uma pesquisa recente revelou que 73% das mulheres brasileiras têm medo de sofrer assédio no Carnaval, e metade já foi vítima de violência sexual em edições anteriores. Entre as mulheres negras, os números são ainda mais alarmantes: 75% têm medo de assédio, e 52% já foram vítimas. No exterior, as brasileiras ainda são fetichizadas, reforçando estereótipos.

O Carnaval, com sua rica história e constante transformação, segue como palco para o protagonismo feminino. O futuro dessa celebração precisa ser mais inclusivo, seguro e representativo, garantindo que todas as mulheres possam se expressar livremente e celebrar suas conquistas.

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