Carolina Cal está transformando experiências vividas em arte

A trajetória de Carolina Cal no Reino Unido começou há 15 anos, quando ela se mudou do Brasil. Como muitas pessoas migrantes, seus primeiros anos foram marcados pelo isolamento. Sem domínio da língua nem rede de apoio, ela teve dificuldades para acessar serviços básicos e navegar em uma cultura estrangeira. Esse período de vulnerabilidade a expôs a diferentes formas de violência. Uma experiência que, inicialmente, interpretou como uma falha pessoal, e não como uma questão sistêmica.

Quando o teatro muda o modo de ver o mundo

O ponto de virada veio por meio das artes. Ao integrar um programa de teatro comunitário com outras mulheres latino-americanas, Carolina percebeu que suas dificuldades eram coletivas, não individuais. Após seis anos na limpeza e na hospitalidade para aprender o idioma e se estabelecer, deu um passo decisivo: ingressou na universidade.


Ao superar o “desperdício de cérebros” da experiência migrante, Carolina deixou a sobrevivência e alcançou a liderança. Recuperou sua voz como pesquisadora criativa.

Ao iniciar seu mestrado, Carolina percebeu que ninguém mais em seu programa compartilhava uma trajetória migratória como a dela. Naquele momento, assumiu um compromisso que a guia até hoje: nunca avançar sozinha, mas sempre levar sua comunidade consigo.

Sua pesquisa sobre teatro participativo e cura de mulheres brasileiras sobreviventes de violência de gênero se tornou prática. Em parceria com o King’s College London, cocriou o vídeo-performance “We Still Fight in the Dark”, que teve circulação pelo Reino Unido em contextos artísticos, acadêmicos e comunitários Depois, ela reuniu suas “hermanas” para criar “When the Lights Go Off… and the Cleaners Get In”, sobre sonhos e resistência de mulheres latino-americanas na limpeza em Londres.

Arte participativa como ferramenta de transformação social

Em 2019, esse trabalho de base ganhou um espaço formal. Com financiamento inicial do “Business and Enterprise Award” da Royal Central School of Speech and Drama, Carolina fundou a Migrants in Action (MinA). A organização integra artes participativas à pesquisa e ao engajamento. Cria espaços colaborativos em que mulheres migrantes da Maioria Global são cocriadoras de conhecimento, e não apenas participantes. Seu trabalho promove bem-estar, fortalece a cura comunitária e impulsiona transformação social por meio de cocriação e práticas artísticas colaborativas.

A atuação de Carolina surge diante de um cenário preocupante. Em Londres, 70% dos latino-americanos qualificados recebem menos que o salário digno, frequentemente inseridos em funções de limpeza. Entre brasileiras, metade já sofreu violência de gênero, com subnotificação elevada devido a barreiras institucionais e medo.

Pertencer também é reconstruir caminhos possíveis

Para Carolina, fazer parte de uma rede global como a SOMOS significa cultivar um senso de pertencimento em um cenário migratório cada vez mais restritivo. Sua missão é desmontar barreiras estruturais para que toda mulher migrante possa prosperar, viver com dignidade e reivindicar seus direitos.

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