Dora Castro oferece a mão que lhe faltou no mundo jurídico

Ao deixar o México rumo ao Reino Unido em busca de uma vida melhor, Dora Castro sonhava em fazer algo significativo com sua vida. Mas sua trajetória esteve longe de ser simples. Enquanto estudava inglês e trabalhava para construir uma nova vida, Dora desempenhou muitos papéis. Trabalhou como faxineira, lavadora de louças, garçonete, assistente de cuidados e profissional de apoio, além de atuar como administradora e secretária, entre outras funções.

A experiência de Dora também reflete uma realidade mais ampla enfrentada por muitos latino-americanos no Reino Unido. Uma pesquisa publicada pelo Trust for London, pela Queen Mary University of London e pelo Latin American Women’s Rights Service constatou que os latino-americanos em Londres apresentavam uma taxa de emprego muito alta, de 85%, mas que a maioria não conseguia utilizar plenamente suas qualificações profissionais. Mais da metade trabalhava em empregos de baixa qualificação e baixos salários, apesar de terem desenvolvido anteriormente carreiras profissionais.

Ao olhar para trás, Dora se lembra de como aqueles primeiros anos podiam ser difíceis. “Infelizmente, encontrei empregadores intolerantes às minhas habilidades linguísticas limitadas enquanto eu tentava melhorar meu vocabulário em inglês. Muitas vezes me senti sozinha e vulnerável, especialmente quando um colega de trabalho gritava comigo sem motivo.” Em vez de permitir que essas experiências a impedissem de seguir em frente, Dora Castro acredita que elas a incentivaram a continuar estudando e aprimorando seu inglês, na esperança de conquistar uma melhor qualidade de vida. Ela estava determinada a aprender e, com o tempo, a cursar uma graduação que lhe permitisse ajudar outras pessoas.

Ela lutou para construir o futuro que sonhava

Dora continuou estudando inglês até se sentir confiante o suficiente para se candidatar à universidade e estudar Direito. Primeiro, precisou passar em um teste de inglês e contribuir com parte das despesas de sua universidade. Mas, justamente quando estava avançando em seus estudos, a vida lhe apresentou outro enorme desafio. Durante o segundo ano da universidade, Dora foi diagnosticada com câncer e precisou refazer o ano. Depois de se recuperar, retornou para o terceiro ano. Então, seu marido foi diagnosticado com leucemia. Dora continuou estudando enquanto apoiava o marido durante o tratamento de quimioterapia. “Eu levava meus livros de Direito para a sala de quimioterapia e passava horas lendo. Depois, precisava cuidar do meu marido e ser aprovada em todas as minhas provas.”

Foi, segundo ela, um dos períodos mais assustadores de sua vida. “Aquilo foi um enorme desafio pessoal, e nunca me senti tão assustada em toda a minha vida. Tenho até uma foto que adoro, minha e do meu marido, enquanto ele fazia quimioterapia. Ela me lembra que a vida é curta demais e que sou responsável pela minha própria felicidade.” Apesar de tudo o que estava enfrentando, Dora se formou em Direito. Seu próximo desafio seria ingressar na profissão jurídica.

Ela enfrentou o preconceito e a insegurança para conquistar seu lugar na advocacia

Ela começou a trabalhar como secretária jurídica e conta que sofreu humilhações e bullying por parecer e falar de maneira diferente. Em determinado momento, um sócio do escritório de advocacia disse que não sabia como Dora havia conseguido passar nas provas e sugeriu que ela considerasse seriamente fazer outra coisa. Ela pediu demissão no dia seguinte. Em vez de permitir que aquela experiência definisse seu futuro, ela e o marido decidiram se mudar para uma região mais multicultural e diversificada. Assim, eles escolheram morar perto de Birmingham. Lá, ela teve a oportunidade de trabalhar como assistente jurídica e começar a trilhar o caminho para se tornar solicitor. Uma advogada habilitada a exercer a profissão no Reino Unido.

Mesmo assim, a jornada continuou sendo marcada por momentos de insegurança. Dora admite que houve ocasiões em que questionou se tinha capacidade intelectual para se tornar uma solicitor e se realmente pertencia à profissão jurídica.

Isso começou a mudar quando ela teve a oportunidade de iniciar o Legal Practice Course paralelamente a um contrato de treinamento, sob a orientação de um excelente supervisor, que era compreensivo e oferecia todo o apoio necessário. Ela trabalhou mais duro do que jamais havia trabalhado antes, sendo aprovada em cerca de 15 provas enquanto trabalhava ao mesmo tempo. Houve muitos momentos em que quis desistir. Mas não desistiu.“Eu não podia, porque tinha fogo dentro de mim.”

Dora Castro transformou sua determinação em uma conquista profissional e oportunidades para os outros

Finalmente, Dora se qualificou como solicitor, uma conquista da qual se orgulha imensamente, especialmente por saber o quanto sua trajetória foi longa e difícil.

Hoje, Dora Castro também busca aproximar a comunidade latino-americana do acesso à Justiça. Seu trabalho tem como objetivo ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade e oferecer apresentações a instituições de caridade e consulados latino-americanos em Londres. Ela quer contribuir para reduzir a distância entre os imigrantes latino-americanos e o acesso aos seus direitos.

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