Da última vez (e, na verdade, a primeira) que escrevi para este blog, adotei uma abordagem mais pessoal e emocional. Hoje, estou entrando em um território mais polêmico: política. Se você é latino, provavelmente já ouviu a frase: “Não se fala de política, futebol ou religião na mesa de jantar.” Mas sejamos honestos, na América Latina, essas são exatamente as únicas coisas de que falamos durante o jantar.
E, no entanto, apesar da nossa obsessão com política, parecemos entendê-la muito pouco ou, pelo menos, tratá-la como se fosse uma telenovela. A cada ciclo eleitoral, escolhemos nossos protagonistas, nossos vilões, nossas reviravoltas e nossas traições dramáticas. Depois, agimos surpresos quando a história termina do mesmo jeito de sempre: com corrupção, crise ou instabilidade econômica. Estamos tão desesperados por mudança que começamos a esquecer a história. Exigimos algo diferente, algo novo, algo que finalmente nos tire desse ciclo interminável de decepção. Mas aqui está a questão: mudança não é o mesmo que progresso. E é aqui que a América Latina continua errando. Não precisamos de mais um líder revolucionário prometendo “zerar o jogo” e recomeçar do zero. Estamos “recomeçando do zero” há décadas, e ainda enfrentamos os mesmos problemas: desigualdade, corrupção, instituições frágeis e infraestrutura subdesenvolvida.
É quase trágico o quão previsível isso se tornou. Em uma eleição, depositamos nossa fé no livre mercado e na privatização. Quando isso não resolve todos os nossos problemas da noite para o dia, mudamos completamente de direção e apostamos tudo na intervenção estatal. Então, quando isso também falha, nos sentimos traídos e buscamos outra alternativa radical, convencidos de que desta vez será diferente. Pegue a Argentina, por exemplo. Desde 1983, o país passou por mais de uma dúzia de crises econômicas, seis reestruturações de dívida e uma inflação que faz dinheiro de banco imobiliário parecer estável. Enquanto isso, a Venezuela, que já foi o país mais rico da América do Sul, passou de uma das economias mais fortes da região para uma das piores crises humanitárias do mundo. E, ainda assim, a cada eleição, continuamos caindo nos mesmos discursos, nas mesmas promessas e na mesma ilusão de que, finalmente, as coisas vão mudar.
Um dos maiores equívocos que temos é essa esperança irreal de que a América Latina eventualmente “vai alcançar” o Ocidente; que se apenas encontrarmos o líder certo, as políticas certas ou o modelo econômico certo, nos tornaremos a Europa do Sul. Odeio ser eu a dizer isso, mas isso nunca vai acontecer. Europa e América Latina são fundamentalmente diferentes. Nossas histórias, culturas e desenvolvimento institucional seguiram caminhos completamente distintos. Enquanto a Europa passou séculos construindo instituições sólidas e desenvolvendo economias industriais, a América Latina lidava com instabilidade, golpes militares e economias baseadas na exportação de matérias-primas em vez da industrialização. Isso não significa que estamos condenados ao fracasso, mas significa que precisamos parar de fingir que podemos simplesmente copiar e colar modelos europeus nas nossas sociedades. Em vez de sonhar em ser a Europa, seria mais viável aprender com suas boas práticas e adaptá-las ao modus operandi da nossa região. Precisamos focar em construir uma América Latina funcional, onde a corrupção seja a exceção e não a regra, e onde o crescimento econômico não seja apagado pela incompetência do próximo governo.
E, apesar de tudo isso, continuamos ignorando a única coisa que poderia realmente mudar tudo: educação. Podemos exigir justiça social, podemos exigir estabilidade econômica, podemos exigir direitos básicos, mas sem educação, nada disso será sustentável. Embora eu tenha dito que nunca seremos a Europa, insisto que devemos analisar o sucesso dos países mais desenvolvidos e adaptar suas políticas para a gestão dos nossos países. Veja a Finlândia como exemplo. Nos anos 1960, a economia finlandesa era fraca e seu sistema educacional estava em crise. Em vez de jogar dinheiro em soluções de curto prazo, o país investiu em educação, aumentando os salários dos professores, melhorando os currículos escolares e tornando a educação uma das prioridades nacionais. Hoje, a Finlândia é consistentemente um dos países mais bem-educados e inovadores do mundo. Enquanto isso, na América Latina, os governos continuam cortando verbas para educação enquanto gastam bilhões subsidiando indústrias que não geram crescimento sustentável. Em 2022, por exemplo, o México destinou apenas 3,1% do seu PIB para educação, muito abaixo dos 6% recomendados pela UNESCO. O resultado? Baixos índices de alfabetização, professores mal pagos e uma força de trabalho que tem dificuldade em competir na economia global. E ainda assim, continuamos nos surpreendendo quando ficamos para trás.
Mas aqui está a boa notícia: a nossa geração tem a chance de mudar isso. Diferente dos nossos pais e avós, temos mais acesso à informação do que nunca. Não precisamos depender de jornais censurados ou redes de TV tendenciosas para entender o mundo; temos a internet, temos livros, temos a capacidade de nos educar além do que é ensinado em salas de aula sucateadas. Mas acesso à informação não é suficiente. Precisamos realmente usá-lo. Precisamos nos engajar em discussões políticas além de desabafos no X. Precisamos pressionar por políticas que priorizem educação, pesquisa e inovação, em vez de apenas reagir ao próximo escândalo viral. Precisamos parar de votar com base em carisma e começar a votar com base em fatos.
A América Latina tem repetido os mesmos ciclos políticos há décadas. Se não quebrarmos esse padrão, seremos apenas mais um capítulo no longo e trágico romance da política latino-americana. A questão é: seremos a geração que finalmente vai acertar?
A América Latina é feita de histórias, ciclos e desafios — mas também de conexões. Conexões que atravessam fronteiras, unem profissionais, resgatam raízes e fortalecem nossa identidade coletiva. Acreditamos que, ao entender nosso passado e ampliar nossas perspectivas, podemos construir um futuro melhor. Assine nossa newsletter e receba semanalmente reflexões, curiosidades, dicas, promoções, e muito mais!






