Ketty Rodriguez criou em Londres o espaço que procurava

Ao deixar Cuba pela primeira vez, a atriz Ketty Rodriguez enfrentou os desafios de um recomeço. Aprender um novo idioma, adaptar-se a outra cultura e começar a vida em um lugar desconhecido. Essa experiência lhe ensinou resiliência e a capacidade de se adaptar a novos ambientes. Por isso, ao chegar a Londres em maio de 2025, ela precisou reconstruir sua rede de contatos e encontrar sua comunidade do zero.

Desta vez, porém, o desafio também era profissional. Como atriz latina em Londres, Rodriguez percebeu que a representação de mulheres latinas na televisão e no cinema britânicos continuava limitada. Seu sotaque também poderia se tornar um desafio adicional na busca por oportunidades de atuação. Em vez de enxergar essas barreiras apenas como obstáculos, ela decidiu criar algo.

Ela fundou o London Latino Film Festival (LoLaFF) como uma forma de encontrar sua comunidade, conectar-se com artistas e cineastas latino-americanos e criar um espaço onde histórias e cultura latinas pudessem ser vistas e celebradas.

“Parei de me perguntar ‘Onde eu me encaixo?’ e comecei a me perguntar: ‘O que posso criar que permita que pessoas como eu sintam que pertencem?’” Essa pergunta está no coração do LoLaFF.

Ketty Rodriguez chegou a Londres procurando seu lugar e decidiu criar um

Para Ketty Rodriguez, o festival nasceu de uma pergunta. Como uma comunidade latino-americana tão grande e crescente em Londres ainda pode ter sua cultura, histórias e vozes tão pouco visíveis? Sua resposta foi criar mais do que um festival de cinema. O LoLaFF busca oferecer uma plataforma para cineastas e artistas latino-americanos. Ao mesmo tempo em que proporciona a públicos que talvez conheçam pouco sobre a América Latina a oportunidade de descobrir a diversidade de suas culturas.

Com centenas de inscrições de cineastas de toda a região, a edição inaugural reunirá longas-metragens, documentários, animações e curtas-metragens, além de exposições de arte, apresentações de dança, celebrações culturais e projetos comunitários. “O cinema está no coração do festival, mas nossa cultura é muito maior do que aquilo que acontece em uma tela”, afirma Rodriguez.

Essa ideia é pessoal para ela. Crescendo em Cuba, ela esteve cercada por música, dança, cinema e arte, além de um forte senso de identidade cultural. “Eu queria trazer essa riqueza para Londres e criar uma experiência em que diferentes formas de arte pudessem se unir.” A natureza multidisciplinar do LoLaFF também reflete seu desejo de representar a América Latina em toda a sua diversidade.

“Não somos uma única cultura ou uma única história”, diz ela. “Temos tantos países, identidades, idiomas, histórias e experiências diferentes, e o LoLaFF é uma forma de reunir essas vozes.” O festival reúne uma comunidade latino-americana de mais de 20 países, com diferentes histórias, desafios, sotaques, identidades e tradições.

Para Rodriguez, o LoLaFF trata de visibilidade, representação e conexão. Ao mesmo tempo em que essa cultura é apresentada a um público britânico e internacional mais amplo. Ela quer que as histórias e a cultura latinas se tornem impossíveis de ignorar. Não apenas em Londres, mas em todo o cenário cultural do Reino Unido.

O que começou com Ketty Rodriguez ganhou vida própria e não ficou sozinha por muito tempo

Ketty Rodriguez afirma que essa jornada também a transformou pessoal e profissionalmente. Ela aprendeu a pensar maior, transformar ideias em ação e ganhar mais confiança para correr riscos e tomar decisões mesmo quando não há um caminho claro. Olhando para trás, ela se orgulha especialmente do que o LoLaFF conseguiu alcançar em um curto período de tempo.

O festival recebeu apoio de organizações como o BFI e a City of London. Rodriguez descreve como um reconhecimento significativo do trabalho que está sendo realizado. A acessibilidade também faz parte do festival, com 25 filmes disponíveis para públicos surdos e com deficiência auditiva.

Uma das coisas de que Rodriguez mais se orgulha é da equipe que cresceu em torno da ideia. “Estou cercada de pessoas que acreditam no LoLaFF e amam o projeto tão profundamente quanto eu”, diz ela. Para ela, testemunhar o comprometimento, a criatividade e a paixão das pessoas envolvidas tem sido uma das partes mais significativas da jornada. Uma ideia que começou com ela se tornou algo compartilhado por um grupo maior.

Desde o início, ela também contou com o apoio de Javier Torres, ex-Primeiro Bailarino do Ballet Nacional de Cuba, que hoje é CEO do LoLaFF. Rodriguez afirma que sua formação artística e sua crença na visão do festival foram importantes desde o começo. Além de Javier Torres, também tem o suporte de Benicio del Toro, Carlos Acosta, Óscar Martínez e Jorge Perugorría.

Ela não quer apenas que olhem para a América Latina quer que a escutem e ocupe o seu lugar no cenário cultural

Ketty Rodriguez vê o LoLaFF como parte de uma mudança mais ampla na visibilidade da cultura latina na Europa. A música, o cinema, a arte e o talento latino-americanos estão alcançando públicos internacionalmente, afirma ela. Porém, ela deseja que essa visibilidade também se reflita de forma mais forte. Por isso, o LoLaFF pretende não apenas apresentar artistas, mas construir pontes. Além de criar oportunidades para que as pessoas participem, colaborem e contem suas próprias histórias.

Rodriguez também chama atenção para a experiência de uma comunidade que ainda pode acabar sendo simplesmente classificada como “Outro”. “Somos uma comunidade de mais de 20 países, com diferentes histórias, desafios, sotaques, identidades e tradições, mas com um senso compartilhado de cultura e orgulho.”

Sua ambição é que os latino-americanos deixem de ser vistos simplesmente como um grupo demográfico em crescimento e passem uma parte ativa e visível do cenário cultural da Europa. E ela acredita que o cinema tem um papel importante nesse processo.


Quando o público já está lá, mas a indústria ainda não chegou

Para Ketty Rodriguez, o sucesso global da cultura latino-americana prova o interesse por ela. Artistas como Bad Bunny, Karol G e Peso Pluma lotaram estádios e alcançaram públicos em todo o mundo. Para Rodriguez, a indústria cinematográfica foi mais lenta para responder.

“A música foi muito mais rápida em reconhecer esse público e responder a ele”, afirma. “O público já está lá.” Na visão dela, a diferença não está na falta de interesse por histórias latinas, mas na cautela da indústria cinematográfica em investir em histórias e talentos sub-representados. Essa lacuna pode ser reduzida investindo em cineastas latino-americanos, garantindo distribuição adequada e confiando que os públicos se conectarão com histórias autênticas, em vez de narrativas moldadas por estereótipos.

O LoLaFF busca contribuir para essa conexão entre cineastas e públicos e ajudar o cinema latino a alcançar uma audiência mais ampla na Europa. Para Rodriguez, o próximo passo é transformar o interesse do público em algo mensurável.

“Uma coisa é dizer que existe um público latino em crescimento”, afirma. “Outra é demonstrar que esse público vai comparecer, comprar ingressos, interagir com o conteúdo e apoiar cineastas quando tiver a oportunidade.” Ela vê os festivais como parte importante desse processo: construir públicos, gerar visibilidade e conectar cineastas a espectadores, distribuidores e à indústria. O objetivo não é pedir “um favor ou uma cota”, mas demonstrar o valor dessas histórias e desses públicos.

Essa busca por visibilidade também se estende além da cultura. O LoLaFF foi convidado a realizar o fechamento do mercado na London Stock Exchange durante o Hispanic Heritage Month, colocando o festival e a comunidade latina em um espaço associado a negócios, investimentos e poder econômico.

“Cultura e economia estão muito mais conectadas do que às vezes percebemos”, afirma Rodriguez.

Cinco dias. Muitas histórias. Uma comunidade.

A edição inaugural do London Latino Film Festival acontecerá de 2 a 6 de outubro de 2026. Entretanto, terá atividades paralelas realizadas ao longo de todo o ano. Uma oportunidade de reunir a comunidade latino-americana e mostrar sua força, seu talento e sua diversidade.

“Este é o nosso momento”, afirma. Ela quer que os latinos de todo o Reino Unido se vejam refletidos no festival e sintam orgulho do que estão construindo.

Mas o LoLaFF não foi pensado exclusivamente para latino-americanos. “Você não precisa ser latino-americano para se conectar com nossas histórias, celebrar nossa cultura ou fazer parte dessa experiência.” Um festival que convida públicos mais amplos a descobrir as suas diversas formas de expressão.

Do cinema e da arte de cartazes cubanos a workshops voltados à indústria, dança, música, conversas e iniciativas comunitárias, o LoLaFF é uma tentativa de criar o tipo de espaço cultural que a própria Rodriguez procurava quando chegou a Londres. Um lugar para se conectar. Um lugar para ser visto. E um lugar para pertencer. “Somos mais fortes juntos, e isso é apenas o começo.”

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