Mesmo sendo uma das comunidades migrantes que mais cresce em Londres, os latino-americanos não têm reconhecimento oficial. Isto limita acesso a serviços e empregos adequados. Entre 7 de abril e 3 de maio, eles apresentam novamente sua obra premiada no Brixton House, sul de Londres, mais afiados do que nunca My Uncle Is Not Pablo Escobar. Antes da estreia, Elizabeth Alvarado, coautora da peça, explicou como o projeto surgiu do ativismo do movimento LatinXcluded.
Entre Drama e Realidade: A História por Trás da Peça
“Antes de a peça se tornar uma obra artística definida, começou com conversas, ideias e muito mind mapping”, contou Elizabeth. “Pensávamos nas questões e campanhas em que estávamos envolvidos e em como poderíamos escrever uma história que não só entretivesse o público, mas que também falasse das coisas reais que vivemos na nossa comunidade, criando drama sem tirar a seriedade desses temas e das nossas experiências.”
Desde o início, eles sabiam que essa história precisava ganhar vida no palco. Elizabeth vê o teatro como espaço político, capaz de refletir experiências reais e projetar um mundo mais justo para a comunidade.
O título da peça é, acima de tudo, uma reivindicação da nossa própria identidade. Elizabeth explicou que, junto à co-criadora Valentina Andrade, discutia as piadas e comentários que recebiam ao revelarem ser latino-americanas.
“Não importava que eu fosse equatoriana e que Pablo Escobar fosse colombiano, aparentemente as piadas se aplicavam do mesmo jeito”, contou Elizabeth. “As pessoas sempre mencionavam Escobar, perguntavam se nossa família vendia drogas, se éramos parentes dele ou se o conhecíamos. Virou uma piada recorrente assim que descobriam nossa identidade. Quase ninguém entendia por que não achávamos graça.”
Por isso, o título se tornou essencial para afirmar nossa identidade e rejeitar piadas e comentários discriminatórios, observa Elizabeth. “É curioso como, quando se trata de Escobar ou do tráfico de drogas glamorizado pelo cinema e pela TV, os latino-americanos viram algo interessante, mas ninguém se interessa em ouvir sobre os problemas reais que enfrentamos na vida cotidiana.”
Quando a Quarta Parede Deixa de Existir
A peça é parte thriller, parte sessão de terapia em grupo, e muitas vezes quebra a quarta parede. Para Elizabeth Alvarado, era essencial que o público, latino ou não, se tornasse participante ativo da história, e não apenas um observador silencioso.
“Era importante que todos entendessem a complexidade da identidade dupla, especialmente quem não a vive na pele”, explicou. “Quebrar a quarta parede e usar trechos de ação ao vivo ajuda muito nesse entendimento e na forma como contamos nossas experiências. Também queríamos incluir nossa comunidade, de uma forma envolvente e provocadora.”
A produção explora as realidades de mulheres Latinx, do trabalho como faxineiras à ameaça de deportação. Para Elizabeth, mostrar essas interseções específicas, frequentemente ignoradas, de classe e status de imigração era fundamental:
“Esses problemas e a interseccionalidade são a razão desta peça existir. Queríamos dar voz a questões que permaneciam escondidas, como o fato de nossa comunidade não se encaixar nas categorias de etnia nos formulários oficiais. É muito importante mostrar essas interseções, principalmente quando tentamos esclarecer a identidade dupla para quem não entende todas as suas camadas.”
O impacto vai além do palco. O trabalho da companhia já ajudou a mudar como grandes instituições do Reino Unido reconhecem a comunidade Latinx. Elizabeth descreve a sensação de ver a arte transformar dados do mundo real como algo empoderador:
“Cada conquista das nossas campanhas comunitárias é celebrada. Se conseguimos mostrar que instituições como o King’s College London, o Arts Council England e a Bloomsbury Publishing podem criar espaço para nós, então a Office of National Statistics também pode fazer mudanças para o censo de 2031. Ver a arte mudar dados concretos é inspirador, mostra que o trabalho de artistas e ativistas realmente cria impacto.”
A peça também dialoga com a cultura e o cotidiano latino na cidade, da música à vida noturna: “Uma das coisas mais bonitas de viver em Londres é o multiculturalismo. A vida noturna Latinx mantém uma conexão profunda com nossas raízes. Claro, a comida, os amigos e a família também, mas festas e eventos ajudam a socializar, compartilhar nossa música e cultura, e nos manter conectados. Eu nasci em Londres, mas aprendi a dançar bachata, merengue e salsa graças a amigos e festas, é uma experiência que me deixa orgulhosa e reforça minha identidade, embora não seja um pré-requisito ser “latino o suficiente””
Cultura e Resistência se Encontram em Brixton
Para Elizabeth, o bairro de Brixton, com sua história de resistência negra britânica, inspira a luta pela visibilidade Latinx: “Brixton é um lugar especial para se inspirar. Nossa campanha por representação e visibilidade se conecta muito com a resistência da comunidade negra britânica, a geração Windrush. Vivendo aqui, percebemos que nossa relação mais próxima com outras comunidades é a migração. Entendemos essa luta e temos batalhado pelo direito de migrar e ser reconhecidos legalmente. O trabalho comunitário se baseia no apoio entre gerações, e nossa própria campanha no ONS(Escritório Nacional de Estatísticas) é um exemplo disso, lutamos há mais de 30 anos para que nossas etnias sejam reconhecidas oficialmente e continuará até que vençamos.”
Valentina Andrade, coautora e produtora, também criou um documentário narrado por imigrantes latinos de primeira geração, “Tejiendo Nuestro Futuro.” Nossos mais velhos contaram sobre seu ativismo na revolta de Brixton e os eventos que vivenciaram na cidade.
Elizabeth reconhece os desafios que artistas Latinx enfrentam no Reino Unido:“Conheço muitos criativos Latinx, mas é mais difícil encontrar escritores, diretores ou dramaturgos Latinx aqui. Muitos dos mais bem-sucedidos são Americanos-Latinx. Aceitar minha identidade como escritora Latinx foi um desafio por causa dos estereótipos. Mesmo sendo uma das comunidades que mais cresce em Londres, nosso trabalho, como esta peça, nem sempre é visto como algo que possa ter sucesso. Tive que ‘vender’ nossa peça para conseguir espaço e financiamento, e cada ‘não’ foi difícil. Felizmente, agora nosso trabalho fala por si.”
Empoderando Jovens para Contar A Sua História
A peça também quer empoderar a nova geração: “Queremos que jovens Latinx se sintam capazes de grandes coisas. Se querem escrever uma peça ou simplesmente ser escritores, podem. Somos uma comunidade criativa e trabalhadora; saber que podem assumir suas identidades duplas é fundamental. Ter duas línguas é uma vantagem enorme, e não devemos ter medo de usar esse poder.”
E para quem sente vontade de contar sua própria história, mas teme não haver espaço, Elizabeth deixa um conselho:
“Sei exatamente como se sente. Cada vez que um teatro nos negava espaço por achar que nossa peça não teria alcance, continuamos insistindo. Cada ‘não’ dói, mas nos leva ao ‘sim’ certo. Contar nossa história cria um efeito dominó: quanto mais espaço ocupamos, mais espaço abrimos para outros Latinx contarem as suas histórias. Continuem criando, porque um dia haverá público para ver.”
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Os ingressos estão disponíveis a partir de £16. A peça é recomendada para maiores de 13 anos e tem duração aproximada de 1 hora e 30 minutos. A Brixton House disponibilizou um número limitado de ingressos a £5 para a comunidade latina em todas as apresentações de My Uncle Is Not Pablo Escobar. Para garantir o seu, basta selecionar os assentos roxos (purple seats) no mapa de reservas online. Aproveite, pois a disponibilidade é limitada: quando acabarem, acabaram!
Elizabeth acredita no efeito dominó: abrir espaço para que mais histórias sejam contadas. Para que você também possa ocupar o seu espaço com segurança e informação, criamos uma rede que entende exatamente os seus desafios. É aqui que a SOMOS pode te ajudar através da nossa comunidade com acolhimento, informação e conexão para facilitar a vida na Europa.
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