Recentemente, o diretor francês Jacques Audiard, responsável pelo polêmico filme Emília Perez, afirmou que “o espanhol é uma língua de países modestos, de países em desenvolvimento, de pobres e de migrantes”. Essa visão limitada e reducionista merece uma reflexão mais profunda.
O espanhol, na verdade, foi imposto à América Latina através de um processo de violência histórica, um legado de sangue, destruição ecológica e o extermínio de culturas indígenas. Atualmente com os conflitos e as terras ancestrais sendo transformadas em vastas plantações de soja e milho, enquanto templos sagrados e casas cerimoniais sendo destruídos, muitas vezes queimados por fazendeiros e grupos evangélicos. Um ciclo de etnocídio e genocídio que persiste até hoje, desde a colonização. Crenças impostas. Exploração. Abusos. Hoje, encontramos 826 grupos indígenas no continente, comparados aos 8 milhões a 100 milhões de pessoas antes da colonização. No entanto, o que Audiard não reconhece é que, apesar desse massacre, o espanhol não é apenas a língua dos colonizadores, mas também a de uma resistência contínua.
Hoje, a América Latina é um mosaico de vozes, e o espanhol que falamos aqui é muito mais do que uma língua “modesta”. É uma língua viva, rica em expressões únicas, sotaques e gírias, moldada pela mistura de culturas: indígenas, africanas, europeias, contínuas ondas de imigração, e, sim, anglófonas. Essa fusão criou uma riqueza linguística única que reflete nossa história complexa e multifacetada, e que se estende para o presente, no qual encontramos um fenômeno global: Bad Bunny, a adaptação de Cien Años de Soledad na Netflix, e a constante reinvenção da música, do cinema, e da literatura latino-americana. Uma fusão de culturas e cores. Expressões únicas, pronúncias e gírias – particularidades de cada região, mas com vários jeitos de dizer a mesma coisa. É uma língua viva nas redes sociais, na cultura popular e até mesmo na imigração, que amplia o nosso vocabulário.
Ao afirmar que o espanhol é a língua de “pobres e migrantes”, Audiard ignora a profundidade e a beleza da nossa língua e das nossas histórias. Ele não vê que essa mesma língua está pulsando nos centros culturais mais vibrantes do mundo, enquanto a América Latina se reafirma como uma potência criativa e econômica. Se somos “pobres”, é em termos materiais, mas nossa riqueza cultural, nossa capacidade de resiliência, e a diversidade de nossas histórias são incomparáveis. E, mesmo que o mundo tente marginalizar essas vozes, impossível é apagar nossas contribuições para a cultura global. Muito menos os feitos silenciosos da nossa comunidade ao redor do globo, que brilha por onde passa. Audiard, infelizmente, não tem a inteligência, muito menos a humildade para reconhecer a grandiosidade da América Latina além do compasso do seu umbigo etnocêntrico e suas limitações.
Na SOMOS, temos orgulho de valorizar essa língua e essa história. Celebramos as múltiplas narrativas que formam a América Latina, com seus altos e baixos, mas com uma força vibrante e irreversível. O espanhol falado aqui é a expressão de um continente em constante transformação, onde cada palavra, cada frase, carrega consigo a memória de um povo que nunca se deixou silenciar. Convidamos você a explorar conosco essas histórias, a navegar pelas raízes que nos unem, e a perceber a grandeza que muitos tentam ignorar.






