Entre as décadas de 1970 e 1980, as comunidades latinas começaram a se formar no Reino Unido com a chegada de refugiados da América do Sul. Muitos deles lideraram campanhas pelos direitos humanos, atividades editoriais e a organização política na capital britânica. Na década de 1990, uma nova onda migratória, mais expressiva, foi impulsionada por crises econômicas e pelo agravamento de conflitos civis.
Nascido e criado em Londres, Ryan Arenas é filho de pais imigrantes de duas ondas. O seu pai, na década de 1970, e sua mãe, na de 1990. Como latino de primeira geração, Ryan cresceu entre duas realidades culturais e enfrentou um paradoxo. Viver em uma metrópole global enquanto sua cultura permanecia relativamente invisível na sociedade britânica.
A invisibilidade de Ryan, também conhecido como DJ Pacheco, reflete uma realidade estrutural enfrentada pelos imigrantes latino-americanos no Reino Unido. A comunidade latino-americana em Londres já ultrapassa 250 mil pessoas. Ainda assim, não é reconhecida como categoria étnica específica no censo nacional. O Government Statistical Service (GSS), responsável pelas estatísticas oficiais britânicas, incluiu «Latino-americano» na análise para as classificações previstas para 2031. A mobilização comunitária também levou diversos distritos de Londres a reconhecer oficialmente essa população como minoria étnica. Ainda assim, a falta de reconhecimento nacional dificulta o acesso a serviços públicos e programas de apoio específicos.
Apesar das altas taxas de emprego, mais da metade dos latino-americanos ocupa postos pouco qualificados e mal remunerados, mesmo com cerca de 70% tendo formação superior. A informalidade os expõe à exploração e à discriminação. Para enfrentar esses desafios, organizações comunitárias defendem os direitos dos migrantes, oferecem assistência jurídica e protegem espaços históricos ameaçados pela reurbanização.
Quando a música se torna um ponto de encontro
Esse cenário impulsionou Ryan a buscar uma representação que fosse além da superficialidade e fortalecesse a comunidade latina. Diante da fragmentação da comunidade latina em Londres, ele criou um espaço seguro de conexão e resistência cultural por meio de duas linguagens universais na América Latina, da música e da dança.
Foi dessa missão que nasceu a Our Latin Thing (OLT). A OLT é a mais nova celebração underground da música latina em Londres. Guiada por uma filosofia estritamente tradicional e centrada na experiência musical. Tudo é tocado exclusivamente em vinil. Muito mais do que uma noite de festa, é um refúgio mensal construído sobre os pilares da comunidade, da memória e da história acústica em sua forma mais autêntica.
Entre o sucesso comercial e o apagamento cultural
A relação do Reino Unido com a música latina segue uma lógica de dois pesos e duas medidas bastante fascinantes. Por um lado, o público britânico consome ritmos latinos com entusiasmo. No mercado interno, músicas em espanhol chegam regularmente ao topo das paradas oficiais do Reino Unido. Bad Bunny alcançou o segundo lugar na parada britânica de álbuns após grandes apresentações internacionais. Além disso, o streaming impulsionou o crescimento de músicas em outros idiomas no Spotify britânico.
No Reino Unido, a música latina é frequentemente reduzida a «hits de verão», ignorando a história das comunidades que a produzem. Em Londres, porém, uma subcultura floresce desde os anos 1980, quando festas locais e pioneiros do rádio difundiram a salsa da era Fania, o boogaloo, a cumbia e o jazz latino. É justamente essa corrente profunda e autêntica, e não o boom comercial do streaming, que Ryan busca resgatar. Ele utiliza a força física do groove como ferramenta de tradução intercultural.
Uma pista de dança onde todos têm lugar
Cada evento funciona como um arquivo sonoro. DJs e músicos resgatam discos antigos que contam histórias de amor, perda, esperança e resistência. Ao combinar ritmos e clássicos esquecidos, a OLT cria um ambiente inclusivo e familiar. Pessoas de diferentes origens se conectam pela dança e mantêm vivo o espírito comunitário nos espaços culturais alternativos.
A pista de dança promove segurança e solidariedade para uma diáspora marginalizada. Ao mesmo tempo, acolhe pessoas de todas as origens. Em Londres, a gentrificação ameaça os redutos latinos e os comércios da comunidade. Nesse cenário, a OLT preserva essa cultura por meio de um espaço independente. O projeto parte de uma ideia central: a música latina conecta pessoas pela dança e ultrapassa as barreiras da língua.
Um disco de cada vez
Pacheco busca consolidar a OLT como referência musical e cultural para a diáspora latino-americana no Reino Unido. Fundada em setembro de 2025, a iniciativa já abriu o show da lenda da salsa Rubén Blades, acompanhado pela Roberto Delgado Big Band, na etapa final da turnê Fotografías no Reino Unido, neste verão. Por meio do vinil, do ritmo e da dança, a OLT continua a romper o isolamento cultural, um disco de cada vez.
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