Brízzida Caldeira fortalece o português como língua de herança

Para muitos imigrantes, mudar-se para outro país significa adaptar-se a uma nova cultura. Para a Dra. Brízzida Caldeira, pesquisadora e professora de São Paulo, Brasil, essa experiência abriu novas possibilidades para o ensino de línguas. Ela chegou à França pela primeira vez em 2018, durante o doutorado. Na época, pesquisava o uso de histórias em quadrinhos em salas de aula universitárias heterogêneas. O desafio de ensinar português a grupos multiculturais despertou seu interesse pelo sistema universitário francês. Assim, construir uma carreira acadêmica na França tornou-se seu próximo passo natural.

O recomeço em meio à incerteza global

Após retornar ao Brasil, Brízzida concluiu sua pesquisa na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em 2021, sua trajetória tomou um rumo decisivo. Poucos dias depois de defender sua tese, foi contratada pela Universidade de Aix-Marseille. A oportunidade a levou a se mudar rapidamente para Aix-en-Provence, na França, com o marido.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, mais de 4,5 milhões de brasileiros vivem no exterior. Por trás desses números, há famílias que lutam para manter vivos seus laços culturais. Muitas também buscam transmitir o português às novas gerações, diante da oferta limitada de ensino formal do idioma nas escolas locais. Foi nesse contexto que a trajetória de Brízzida Caldeira ganhou uma nova dimensão. Sua experiência passou a se conectar a uma questão que vai além do percurso individual: como ajudar famílias brasileiras no exterior a preservar sua língua e sua herança cultural?

A mudança durante o auge da pandemia de COVID-19 trouxe profundas incertezas, desde atrasos consulares até rigorosas restrições de viagem. No entanto, a mudança física foi apenas o primeiro obstáculo. Profissionalmente, ela precisou se adaptar a uma cultura universitária completamente diferente. A adaptação também envolveu desafios práticos. Encontrar moradia em um novo país foi um dos desafios enfrentados pelo casal. Eles conseguiram superar essa etapa graças à solidariedade de colegas, que ofereceram orientações e os colocaram em contato com as pessoas certas.. Essa experiência evidenciou, desde o início, a importância das redes de apoio na construção de uma nova vida no exterior.

O idioma que se ouve em casa, mas falta na escola

Para enfrentar os desafios de ensinar em turmas heterogêneas, Brízzida Caldeira dedicou dois anos, entre 2021 e 2023, à criação de materiais didáticos especializados. Os recursos combinam pedagogia diferenciada e gamificação. A proposta era adaptá-los a diferentes objetivos, trajetórias e perfis de aprendizagem. Também buscava valorizar os repertórios linguísticos e culturais dos estudantes. Esse trabalho transformou sua prática docente e facilitou a organização das atividades dentro e fora da sala de aula.

Ao longo de três anos de coleta de dados, a pesquisadora identificou um padrão entre seus alunos falantes de português como língua de herança. O contato com a leitura e a escrita desde a primeira infância estava associado a um melhor desempenho acadêmico. Essa exposição ocorria em casa, na escola ou em associações. Os alunos também demonstravam maior motivação para aprofundar seus conhecimentos do idioma no final da adolescência e na vida adulta.

A iniciativa dialoga com estudos clássicos da linguística sobre a manutenção de línguas minoritárias no exterior. Essas pesquisas destacam três pilares fundamentais: família, escola e comunidade. A articulação entre esses espaços contribui para manter viva a língua de herança e fortalecer os vínculos culturais das novas gerações.

“Ao mesmo tempo, observei que, apesar da presença expressiva de comunidades lusófonas, muitas famílias ainda não têm acesso ao ensino formal da língua nas escolas ou associações”, explica Brízzida. “Elas acabam tendo que assumir sozinhas toda a responsabilidade pela transmissão do idioma.”

Especialistas reforçam que cultivar o Português como Língua de Herança (POLH) vai muito além do ensino convencional de gramática. Trata-se de um processo profundamente afetivo. O idioma funciona como um elo entre a criança, sua identidade cultural e suas raízes.

Uma língua que conecta milhões de pessoas online e offline

Movida pelo desejo de apoiar essas famílias, Brízzida Caldeira passou a atuar também na liderança comunitária. Em 2025, tornou-se coordenadora da filial de Marselha da associação Herança Brasileira. Da união entre pesquisa, ensino e sua própria experiência como imigrante, nasceu o projeto Conexão Herança. A iniciativa conta com o apoio integral do Consulado-Geral do Brasil em Marselha e foi aprovada pelo Instituto Guimarães Rosa. Seu objetivo é aproximar o conhecimento acadêmico internacional da realidade cotidiana das famílias.

O projeto funciona como uma plataforma digital abrangente e gratuita. Brízzida coordenou sua construção ao lado de uma equipe com diferentes especialidades. Namíbia Peixoto ficou responsável pelas parcerias. Tatiana Rangel assumiu a coordenação de pedagogia digital, enquanto Daniele Pechi ficou à frente do marketing digital. Também reuniu especialistas em português como língua de herança de diferentes países. Pesquisadoras da Universidade Federal de Juiz de Fora contribuíram para o projeto. Essa diversidade de experiências ajudou a reunir materiais que refletem diferentes realidades familiares.

O trabalho envolveu comunidades dos Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, Itália, França, Suíça e Brasil. Assim, a plataforma busca atender às necessidades de famílias falantes de português em diferentes contextos culturais. Entre 2025 e 2026, a equipe gravou, editou e organizou um currículo completo e gratuito. O material inclui videoaulas, livros de referência e recursos lúdicos. Os conteúdos valorizam os vínculos afetivos com a língua e orientam as famílias na prática da leitura e da escrita em casa.

A plataforma abrange desde a primeira infância até atividades que estimulam o diálogo com adolescentes. Também reúne links para projetos e materiais sobre bilinguismo, além de respostas a dúvidas frequentes. Esses recursos são oferecidos gratuitamente por suas respectivas iniciativas.

A proposta é concentrar, em um único espaço, orientações que ajudem as famílias a incorporar o português à rotina doméstica. O objetivo é tornar esse processo significativo, lúdico e afetivo. “Decidimos convidar professores para criar atividades especificamente voltadas à alfabetização, que pudessem ser realizadas em casa pelas famílias”, conta Brízzida. “O objetivo é orientar essas famílias por meio de explicações em vídeo e de materiais completos, publicados em nosso livro e reunidos em um espaço dedicado.”

Dia Mundial da Língua Portuguesa: a ciência vira ação social

O projeto foi lançado em 5 de maio de 2026, durante uma transmissão ao vivo pelo YouTube. O evento foi realizado no Consulado-Geral do Brasil em Marselha e transmitido para o público mundial. A data teve um significado especial por marcar o Dia Mundial da Língua Portuguesa. A celebração também simbolizou a transformação da pesquisa acadêmica em uma ação social concreta. Hoje, o português conta com cerca de 260 milhões de falantes em todo o mundo. É a quarta língua materna mais falada do planeta e a quinta mais utilizada no ambiente digital.

“Tenho uma profunda gratidão por todos os profissionais e instituições que participaram”, compartilha Brízzida. “O projeto Conexão Herança é a prova de que a cooperação entre universidades, associações, consulados e famílias pode produzir resultados capazes de fortalecer o multilinguismo e preservar os laços linguísticos e culturais entre gerações.”

O trabalho de Brízzida Caldeira continua se expandindo. No campo profissional, ela desenvolve uma segunda tese de doutorado no Laboratoire Parole et Langage, da Universidade de Aix-Marseille. Sua pesquisa investiga estratégias experimentais para a aprendizagem multimodal de vocabulário.

Paralelamente, ela e sua equipe trabalham para ampliar o alcance da Conexão Herança. O objetivo é transformá-la em uma plataforma global de apoio à alfabetização de famílias da diáspora em todo o mundo.

Ao refletir sobre sua trajetória, Brízzida vê as dificuldades iniciais da imigração como um catalisador para o crescimento. Os obstáculos que enfrentou acabaram aprofundando sua compreensão da educação intercultural e consolidando seu compromisso com a criação de redes de colaboração internacionais.

“Construir redes de apoio, troca e colaboração é fundamental, não apenas para enfrentar desafios comuns, mas também para transformar experiências individuais em iniciativas coletivas que possam ajudar”, reflete. “Fazer parte de uma comunidade que conecta latinos em escala global significa criar oportunidades para compartilhar conhecimentos, fortalecer nossas línguas e culturas e aprender com trajetórias diversas que muitas vezes se cruzam por compartilharem valores e objetivos semelhantes.”

“Entre todas as conquistas dessa trajetória, a criação da Conexão Herança é, sem dúvida, aquela de que mais me orgulho hoje”, conclui Brízzida. “Ela reúne minha experiência como pesquisadora, professora e imigrante em uma iniciativa com impacto concreto na vida de muitas famílias.”

Para conhecer mais perspectivas, dicas práticas, novidades, histórias inspiradoras e guias úteis para recomeçar a vida na Europa, conheça a SOMOS e deixe seu borogodó no nosso mapa.

Categorias